Por que Jesus haveria de pedir alguma coisa ao Pai?

O insistente registro das ocasiões em que Jesus orava deixa no ar uma mensagem toda especial: Se Ele “era” Deus e sabia de tudo, orar a si mesmo nos pede para ver que o Reino de Deus tem hierarquia e que ela deve ser procurada para atendimento das nossas petições.

Toda a discordância – que já virou discórdia – entre o Protestantismo e o Catolicismo, sem levar em conta a questão do erro de interpretação da “idolatria” católica, reside no fato de que os chamados “crentes” passaram a crer, a partir de Martinho Lutero, na ideia anticatólica de que todas as petições humanas podem e devem ser dirigidas APENAS a Deus, e a mais ninguém. E isto pode, sem dúvida, suscitar a falsa sabedoria de que “se Deus é onipotente, não é necessário pedir a mais ninguém além dEle”; “se Deus tem dois ouvidos, não precisamos de nenhum outro ouvido para suplicar”. É este o ponto onde quedam todos os protestantes, convencidos de estar assumindo uma transcendente racionalidade.

E vamos entrar nela agora… Por que não? Ora; sim e sim: Deus é onipotente… É infinito… É o Todo-poderoso. Isto é dogma irrevogável de toda a Cristandade. É aquele ponto onde ninguém discute. Sim… Mas Ele também é soberano, é imperador, é monarca, é Rei… E reis possuem reinos. Reinos possuem súditos, súditos possuem postos. Postos possuem missões, missões distribuídas pelo Rei! Será que este outro ângulo da questão é difícil de ver? Será que este outro ângulo foi propositalmente negligenciado pelo Protestantismo como forma de denegrir não o “Cristianismo Puro e Simples”, mas o Cristianismo Puro e Complicado da Revelação bíblica? Será que esta forma de denegrir o Catolicismo não foi antes de tudo uma maneira subreptícia de demarcar, politicamente, o lado Conservador e o lado Progressista da Cristandade?

Também pudera! Os pecados íntimos de Lutero o levaram fatalmente, como os nossos pecados também levam inexoravelmente, a ir de encontro à autoridade eclesial (lembre que Deus também é uma autoridade eclesial!) e esta o tolerou e tolerou e tolerou, até que sua tentação superou suas forças e o obrigou a gritar forte, ao ponto de ele afixar 95 teses na frente da igreja, sem mais se importar de estar indo contra a autoridade canônica (única que podia ter a palavra final)! Afinal, é assim que as coisas caminham na escalada de adesão a ideias vindas do inferno – porquanto o inferno antevia e sonhava com o dia em que haveria dois, três, quatro ou mil “cristianismos” sobre a Terra, e assim o futuro lhe daria a arma decisiva da confusão, da pluralidade e da relatividade da religião trazida por Cristo. Com mil cristianismos, ele estava com a faca e o queijo na mão para sussurrar nos ouvidos perdidos: “por que você vai aderir a esta denominação, quando há esta outra e esta outra e esta outra?”. Logo, desobedecer à autoridade – a todas as autoridades, segundo Paulo (Romanos 13,1-2) – era e é sempre a proposta final de satanás, e os nossos pecados é que nos fazem ficar surdos à voz de Deus oculta na autoridade humana, sobretudo quando ela é sacerdotal ou canônica.

Assim Martinho Lutero foi empurrado por algum pecado íntimo – para pensar só em um – que estava sendo obstaculizado pela repressão e repreensão da Lei, presente nos olhos da autoridade eclesial, e por causa dele acabou caindo como caem todos os pecadores: se rebelam e depois se separam! Pior: a desobediência brotada a partir do plantio da malícia interior traria também a cegueira óbvia, que o fez não ouvir sua própria lógica: “Se eu sou um servo de Deus, um servo ordenado e sacramentado, Deus certamente me ouvirá, se eu de fato tiver razão; assim sendo, e como a Escritura que julgo obedecer me diz que eu devo pedir tudo em oração – e crendo receberei – e que devo ser PACIENTE em esperar no Senhor, e vendo que o prejuízo de dividir o Corpo de Cristo será muito pior para o próprio Deus, então devo calar-me a aguardar pacientemente, pois se eu estiver certo nos pecados que aponto na Igreja, o próprio Deus a corrigirá, seja por bem ou por mal”.

Isto tudo prova que Lutero foi impaciente e NÃO CONFIOU na resposta de Deus (nem no tempo de Deus) e por isso agiu por impulso de pecado, provocando o maior de todos os prejuízos ao Evangelho de que se tem notícia desde o nascimento do Cristianismo! – Pior, o próprio Jesus a quem ele acreditava seguir, demonstrou concordar plenamente com TODAS as hierarquias, as quais vão desde a hierarquia no lar (ali o homem é o cabeça e a mulher o obedece – I Pedro 3,1-6) até a hierarquia militar das Forças Armadas, que muitos consideram “assassina”, e à qual Jesus jamais se opôs, pelo contrário, elogiou a quem a obedecia até mais que os filhos de Israel! (Mateus 8,5-13).

Com isso vemos aí em desfile pelo menos três pecados em Lutero, e foi assim que o Protestantismo nasceu, e com ele os seus filhos doentes e degenerados, chamados Testemunhas de Jeová, Mórmons, Adventistas, Presbiterianos, Neopentecostais, etc. Nem é preciso rebuscar mais na memória para concluir que, de uma religião que nasceu de uma desobediência, só poderia advir uma corrente desobediente, e com ela a relativização de todas as hierarquias, sobretudo as hierarquias DO REINO DE DEUS, soterradas ou embaçadas no erro teológico da criação de um Reino sem hierarquia!

Porém tal não há. A ordem está presente em tudo no coração de Deus, e também em tudo o que Ele cria. A rigor, Ele nunca deixou de lado a hierarquia, até porque ela é, ao final, a única garantia de que qualquer coisa funcionará a contento, e também a garantia de detectar aonde e como o mal pode penetrar, já que qualquer desobediência a Deus resulta em prática da maldade.

Mas Deus queria a obediência levada às últimas consequências! Queria que seus filhos diletos demonstrassem o seu amor a partir da obediência do primeiro mandamento, e Ele mesmo adicionou à ideia original à condição dela decorrente: “amar ao próximo como a mim mesmo”. Não era apenas amar ao próximo como a ti mesmo! Era amar ao próximo como a mim mesmo, sendo o “mim” o próprio Deus! Ali estava a espinha dorsal do Reino de Deus, pois ninguém poderia amar sem obedecer e nenhuma obediência seria sinal de amor, se obedecesse somente a Deus e não ao próximo instituído por Deus como autoridade! Aqui a visão do Reino fica mais clara.

O Reino celestial está cheio de santos e santas, todos entronizados por Deus em condições e missões especiais, pelo menos enquanto durar a vida de pecado na Terra. E na Terra, Deus está vendo quem ama ao próximo e quem não ama. Ou seja: quem obedece e quem vive em rebeldia. Mas quando uma pessoa viva ama o próximo (ao ponto de obedecê-lo) e obedece às autoridades instituídas sobre a face da Terra, está, no fundo, obedecendo a pessoas que ainda possuem pecados, e por isso as obedece porque mesmo assim Deus lhe pediu sua obediência (Romanos 13,1-2)!

Como então este sistema da Terra não iria vigorar na pátria celestial? Se na Terra obedecemos a pecadores, como não obedecer aos santos do Céu? E se na Terra, precisamos das autoridades “defeituosas” para conseguir resolver nossos problemas, por que não iríamos precisar das autoridades santas que visitam todo dia a face do Senhor? Eis porque orar aos santos é uma instituição divina, e também eis porque os santos podem atender nossos pedidos de interseção, pois ao visitarem a face de Deus diuturnamente, também levam a Ele as nossas orações e as nossas súplicas por ajuda, e o coração de Deus é MOLE e GRANDE DEMAIS para não dar ouvidos aos santos que já subiram aos céus!

O coração de Deus é mole como um gigante feito de chocolate sob a luz do meio dia.

Mesmo vendo que talvez nem era preciso pedir a ninguém (o mero sentir necessidade já pode ser atendido – Mateus 6,8 –, segundo Jesus) e nem a santo algum ao lado dEle, Ele ouve tais pedidos com uma alegria infinda por ver que o pedinte está RESPEITANDO a Autoridade da Hierarquia, ou seja, que já assumiu o “espírito de obediência” da alma mais amada por Ele, pois só aquela 100% obediente pode ser 100% humilde e livre de presunção! Eis a pedra de toque.

Enfim, por que o próprio Jesus pedia alguma coisa ao Pai, quando Ele já sabia de tudo e já sabia que era atendido total e peremptoriamente? Por que revelar aos discípulos (e ao público em geral – João 11,42) que o próprio Deus-filho orava a Deus-pai? Ora, porque todo pai é autoridade para o filho, e todo bom filho obedece ao pai! Logo, na relação de 3 pessoas da Trindade, mesmo não sendo necessária, a Hierarquia subsiste, e até ali a obediência é a Regra e a Lei.

Num Reino onde há um pai, um filho e uma terceira pessoa na Trindade, o pai continuará sendo a Autoridade máxima, e seu filho O honrará com sua obediência eterna. E esta obediência foi chamada pela Escritura de “advocacia” de Cristo (I João 2,1) e Ele mesmo foi entronizado como o nosso “Intercessor”! Intercessor é a pessoa que intercede a favor de outrem, e por isso nossas orações são endereçadas ao Filho, embora possam ser endereçadas ao Pai. Porém um pedido ao Filho demonstra uma dupla obediência: à Autoridade de Deus e à autoridade da hierarquia, que deve ser respeitada em todas as instâncias!

Então Jesus Cristo deixou-nos um exemplo vivo de como devemos orar, respeitando a Deus e à hierarquia que Ele instituiu no seu Reino! E lá no seu Reino há tronos, principados e poderes, cargos e funções. Assim como numa empresa você pode procurar falar com o Presidente, marcando hora com sua secretária, ele ficará muito honrado por saber que você já procurou outras instâncias e não foi atendido, e por isso teve que ir à presença dele e tomar-lhe tempo.

Está delineado todo o quadro devocional e orante da “economia da salvação”:

(1º) Nós a rigor nem precisávamos orar, porque Deus já conhece nossas necessidades e sabe o que será melhor para nós, antes mesmo de lhe pedirmos algo;

(2º) Nós podemos orar diretamente a Deus, porque Ele ouve tudo e será, ao final, o principal responsável pela decisão final de nos ajudar;

(3º) Nós podemos orar diretamente a Jesus, porque Ele mesmo se colocou como nosso advogado e intercessor; então Ele mesmo convencerá o seu Pai de que merecemos (ou não) ser atendidos; Isso também O agradará pelo respeito que demonstramos pela hierarquia do Céu, na qual Ele foi instituído como nosso Advogado;

(4º) Nós também podemos orar à Mãe de Jesus, a principal santidade humana do Céu, pois ela própria intercedeu junto ao seu Filho nas Bodas de Caná, orientando-O a dar início à sua missão de salvador da Humanidade (Jesus afinal, como filho amado e amantíssimo de sua Mãe, jamais a entristeceria negando-lhe atender um favor em favor de um outro filho seu, perdido em meio a um planeta perigoso e cheio de armadilhas, inclusive hermenêuticas!); Jesus também ficaria feliz por ver, no pedido à sua mãe, o extremo respeito do pecador à hierarquia de seu Reino (Daniel 4,17);

(5º) Finalmente, nós podemos orar a outro santo, na confiança de Jesus ou de Maria, pois aquele a quem Jesus confiar merece toda a nossa confiança. Afinal, no Céu só habitam santos 100% santos, e estas criaturas são, a partir da salvação em Cristo, as maiores alegrias que seu Pai tem no seu Reino, pois quanto mais pecador tiver sido outrora um daqueles santos, mais alegria deu e continua dando no meio do Paraíso dos salvos! (Lucas 15,7 e 22-32).

Eis aí expostas todas as cartas deste baralho divino que Lutero não soube respeitar. Eis aí a luz deste inefável encontro da necessidade com a Autoridade, da verdade com a bondade, que encontraremos no Paraíso escatológico de Jesus. E o que esperamos encontrar ali quando enfim botarmos nossos pés outrora trêmulos? Bem. O que você espera encontrar lá eu não sei. Mas o que eu esperarei sentado confortavelmente numa poltrona de uma secretaria toda atapetada em ouro e cristal, é ouvir o tilintar do sino de chamar justos, aqueles que confiaram tanto na organização celestial que ganharam humildade “conversando” com os humildes glorificados, porque descobriram que o Senhor adora atender a essa gente que no mundo não tinha voz nem vez (Tiago 4,3-6 e 5,16).

 

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Carta a um judeu espírita de quem Jesus se aproximou

Um ex-colega de trabalho espírita com quem convivi por mais de 10 anos, foi sutilmente seduzido pelo Espírito de Deus a olhar para Jesus, que ele entreviu tempos depois de abraçar o Judaísmo.

Carta de Flávio Amoreira ao Prof. JV:

Prezado Prof. JV: Sei que sua cabeça gira em torno das suas aulas, pesquisas, publicações mas, sinto que preciso de seus conselhos sobre algo que se passa comigo e estou na chamada “sinuca de bico”. A situação gira em torno de minha fé… algo que há anos atrás achava que seria inabalável, mas sinto que meu alicerce encontra-se com algumas rachaduras conforme descreverei abaixo:

Prof., sempre tive muita curiosidade em saber algo sobre o passado da minha família, minhas origens e principalmente o que havia se dado em relação à fé da minha família; porque tu sabes, meu sobrenome é judeu os Amoreiras vêm da Espanha. Este nome foi dado para substituir um sobrenome judeu, para que a famílias conseguissem escapar das perseguições religiosas da Rainha Isabel de Castela e Fernando de Castela. Enfim, ou se convertia ao Catolicismo ou teria que sair da Espanha rumo a Portugal, ou morreria.

Sempre quando criança sentia uma grande depressão ao entrar numa igreja Católica; algo parecido com depressão; não entendia. Nestes últimos tempos pedi para um RABINO em São Paulo levantar a minha origem judaica e foi isso mesmo: meu TETRAVô realmente era um judeu espanhol com muito dinheiro que comprou o titulo de AMOREIRA. Ele se converteu ao catolicismo e o pior, perseguiu aqueles judeus que não se convertiam. Ou seja, o velho foi um sacana: abriu mão de sua fé e perseguiu seus próprios irmãos, um covarde.

A esposa dele não se converteu ao Catolicismo e manteve-se em sua fé. O velho era ruim: ele se separou dela e a enviou para Portugal (claro que depois ele se arrependeu e foi a sua procura lá no Norte de Portugal, mas quando descobriu onde ela estava a mesma já havia morrido).

Prof., não sei o que acontece: ele não era o primogênito, era o segundo filho; depois disso, todo segundo filho nasce com uma mancha e fica viúvo ou se separa. O segundo filho do meu tetravô se separou e tinha uma mancha no braço; o segundo filho do meu trisavô tinha a mesma mancha no pescoço e ficou viúvo; meu bisavô era o segundo filho e tinha essa mancha na perna: ficou viúvo; meu avô tinha a mancha no braço e se separou; meu pai que também é o segundo filho ficou viúvo; e eu tenho essa mancha na coxa próximo às nádegas: esses dias cheguei a sair de casa por problemas de relacionamentos com a Laura (nunca diga isso a ela pois ela ficaria chateada comigo); mas quando cheguei no local em que me hospedaria, algo dentro de mim disse: “não faça isso, você tem que quebrar essa maldição! Se converta à sua religião, viva com sua esposa e liberte seus antepassados”. Foi incrível esta experiência, mas agora vou escolher viver bem com minha esposa; mas abandonar o espiritismo e me converter ao JUDAÍSMO? Minha cabeça esta a mil!

O que lhe contei faz parte da minha maior intimidade, e só contaria pra você; estou com a cabeça a mil. Caso possa, me aconselhe, o que fazer???

Atenciosamente, Flávio.

Resposta do Prof. JV ao Sr. Flávio Amoreira:

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Mudança de periodicidade: agora, somente publicações mensais

Dada a abrangência teológica dos temas já tratados e publicados por esta Escola (todos disponíveis pelo Google), e devido ao aumento das atividades de vídeo do Canal StudioJVS, este Site passa a publicar matérias e artigos apenas uma vez por mês.

Dada a abrangência teológica dos temas já tratados e publicados por esta Escola (todos disponíveis pelo Google), e devido ao aumento das atividades de vídeo do Canal StudioJVS, este Site passa a publicar matérias e artigos apenas uma vez por mês. Em razão dessa justa força maior, os nossos afiliados, amigos e visitantes poderão consultar todas as matérias por nós publicadas em nossa própria barra de pesquisa (“Pesquise conosco”), bastando para isso apontar o tema escolhido e esperar o resultado em seguida.

Da mesma forma, se esta pesquisa não puder ser realizada por algum motivo, uma busca no Google (agora um novo “pai dos burros”) pelo tema procurado, ou o simples registro no nome desta Escola ou do professor JV de Miranda – João Valente de Miranda Leão Neto – naquele motor de busca, serão suficientes para expor toda a produção deste Site, além de artigos publicados em outros sites (como “Webartigos”, “Artigonal”, “Diretório de Artigos”, etc.) e em sites de “apresentações em PowerPoint”, bem como livros e livretos de nossa autoria, enfim, tudo poderá ser alcançado via Google, como nossos alunos já sabem há anos.

Uma análise mais paciente de nossas razões deve incluir também alguns fatos notórios e comuns a qualquer editor/publicador de matérias escritas neste país, sobretudo quando elas alcançam certas dimensões consideradas “cansativas” (apesar de as reclamações – quase sempre omitidas pela própria “vergonha analfabética” do reclamante – não terem cabimento num país onde pouca gente lê ou pouca coisa se lê!) ou exigentes em matéria de tempo e atenção, coisa de fundamental importância quando se quer tratar de teologia em alto nível.

Um desses fatos notórios e comuns, infelizmente, é algo encontrado DENTRO do próprio coração da cristandade. Na realidade e com efeito, o fato de cada homem de Deus que sai a pregar pelo mundo jamais encontrar unanimidade – ou mesmo algo parecido – junto aos seus diversos “ouvintes-pregadores”, acaba sendo o estopim para o atual palco planetário da evangelização ter se tornado um verdadeiro “sermão aos peixes”, com cada pregador pregando sozinho para escutadores solitários ou para surdos voluntários, todos na presunção de ter um discurso melhor ou mais abalizado no labirinto hermenêutico das Escrituras, como se Jesus tivesse deixado a seus “profetas” qualquer tarefa fácil, quando na verdade o Novo Testamento garante sempre a ocorrência de dificuldades no caminho, como quando disse que viria um tempo onde ninguém “suportaria a sã doutrina” (II Timóteo 4,3-4) e ao final cada pregador teria que perguntar: “Senhor, quem creu na minha pregação?” (Romanos 10,16)…

Porém a hipótese levantada no parágrafo anterior é, apesar de tudo, uma das únicas que se pode chamar de “positiva”, porquanto dentre aqueles que não lêem ou não ouvem pregações mais profundas geralmente se encontram almas vazias, daquelas que uma novela global ou uma fofoca da vizinha será sempre mais atraente, sobretudo quando comentada “nas redes sociais”, que hoje em dia é o maior veículo de alienação dos alienados. Neste sentido, competir com os “smartphones” ou com os “zap-zaps” é tarefa por demais injusta, sobretudo quando seus usuários de fato só querem fofoquinhas e papinhos vazios, e nada que vá além da superficialidade imbecilizante desta sociedade fútil.

Este estado de coisas, afinal, que parece indicar alguma irritação ou retaliação de nossa parte, está longe de ser algo particular dos veículos de publicações/pregações mais densas! Na verdade, o fenômeno da rejeição do esforço mental e o fenômeno da preguiça de ler coisas que exigem maiores raciocínios está presente em toda parte, sobretudo em ambientes de igreja, de escola bíblica dominical, de seminários teológicos, de laboratórios de pesquisa, de grupos de estudo, etc., e por isso nossos pregadores não se sentem rejeitados por ninguém em particular, tal como não se sente rejeitado o dono de churrascaria que vê saírem de seu restaurante jovens que só estavam pensando em pizzas! Se, afinal, a comida que o povo quer é outra (de baixa nutritividade e alta lipididade) e se Deus nos mandou pregar a tempo e fora de tempo (II Timóteo 4,2), então tudo é alegria para nós e galardão nos céus! Afinal, “eu poderei saber que não corri em vão” (Gálatas 2,2).

Isto posto, e de qualquer modo, aumentar o espaço entre cada publicação nossa para uma vez a cada 30 (trinta) dias, também se deve ao fato de que essa gente alienada, ou esses cristãos de “meia tigela”, estão vivendo num tempo onde A IMAGEM (sobretudo a imagem em movimento, leia-se, “cinema”) é a coqueluche da vez, é a moda peremptória de hoje, e por isso publicar vídeos agora se faz muito mais interessante para as pretensões evangelizatórias de toda a cristandade, e por isso não é à-toa que tantas igrejas têm canais no Youtube e até canais em TV Aberta

Assim sendo, e seguindo o “espírito da época”, nossos blogs e sites também abriram canais e a eles se dedicarão mais, publicando muitas mensagens em vídeo, com os quais poderemos indicar nossas matérias escritas a “visitantes curiosos” ou a quem interessar possa, de tal modo que ao final alguma coisa mais profunda acabe chegando a esses corações volúveis e superficiais da pós-modernidade. Nem é preciso lembrar que as produções em vídeo tomam muito mais tempo nosso, e por este motivo isso também é outra boa razão para diminuirmos as matérias escritas.

Finalmente, e em último ponto, pedimos sinceras desculpas aos leitores cultos que liam nossas matérias quinzenalmente, não esquecendo de lembrar que podem, sempre que desejarem, nos enviar seus abalizados comentários que tanto nos honram, pelos quais muitas inefáveis inspirações de Deus nos chegam para a redação de matérias muito mais profundas. Quem sabe o espaço de trinta dias não seja o estopim de matérias cujo conteúdo ganhe o papel histórico que CS Lewis conseguiu com suas tão densas mensagens escritas?! Oremos por isso, e estamos gratos de todo coração.

 

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Uma única frase expõe todo o Lewisianismo purista!

A versão de uma antiga canção americana traz uma frase belíssima e tão profunda que explicita todo o pensamento “mágico” de CS Lewis, e permite abordar tudo o que Lewis revelou nas “Crônicas de Nárnia”.

A versão brasileira de uma lindíssima obra do cancioneiro mundial encanta nossos ouvidos em profundidade, como se remontasse as mil e uma noites de amor das histórias vividas entre o século V (a Era do Rei Arthur) e o Século XII (“Era dos Anjos”), como muitas vezes se viu em filmes emocionantes de Hollywood, tais como “Lancelot”, “O Arqueiro e a Feiticeira” e “O Feitiço de Áquila”. Refiro-me à versão da música “Tender is the night”, de Paul Francis Webster e Sammy Fain, feita por Nazareno de Brito e chamada “Suave é a noite”, a qual foi interpretada por muitos artistas, dentre eles Moacyr Franco, Silvinha, Luiz Melodia, Agostinho dos Santos, Agnaldo Timóteo, Nelson Gonçalves, Alcione, enfim, muita gente que viu nesta canção toda a beleza da melodia original, que encantou também na voz de muita gente boa na música internacional.

Pois bem. A versão da música para o português acabou inspirando Nazareno de Brito a deixar registrada uma das frases mais profundas do pensamento lewisiano, como o leitor pode conferir na letra de sua poesia, conforme exposta a seguir:

Estrofe 1: “É tão calma a noite/A noite é de nós dois/Ninguém amou assim/Nem há de amar depois/ – Estrofe 2: Quando o amanhã nos separar/Em nossa lembrança hão de ficar/Beijos de verão/Ternuras de luar/E a brisa a murmurar/Sua canção – Estrofe 3: Tudo tem suave encanto/Quando a noite vem/A noite é só nossa/No mundo não há mais ninguém”. Vejamos se o leitor descobre a “frase mágica” sem uma indicação nossa. Vamos então abordá-la de modo indireto, contando uma história que chamaremos aqui apenas “teórica” ou fictícia.

CS Lewis nos contou em suas obras, sobretudo nos livros da Série “Crônicas de Nárnia”, que os planetas, ao nascer, possuem muito mais “energia vital” (por assim dizer) do que os planetas velhos, tal como as crianças têm muito mais energia que os idosos, em suas “estripulias e danações”. A ideia ali defendida era que os planetas, após os seus períodos iniciais superaquecidos e seus subsequentes resfriamentos, fariam emergir uma terra tão fértil ou tão viçosa que, em teoria, se alguém lançasse na areia uma gilete (uma lâmina de barbear), depois de algumas semanas nasceria um “pé-de-gilete” ou uma árvore cujos frutos seriam lâminas para barbear humanos (tudo por efeito de magnetismo natural, que para Lewis está intimamente relacionado com Magia, Poder de Deus).

Tecnicamente, o que ocorre com o passar do tempo é que, assim como o planeta vai resfriando paulatinamente de seu calor intenso “pós-nascimento”, assim também o seu magnetismo vai sofrendo “decréscimos”, sua velocidade de rotação vai diminuindo, seu eixo vai inclinando e tudo o mais, sem exceção, vai sofrendo o efeito da entropia natural e inexorável de toda a matéria, até atingir seu fim na morte do universo, quando todas as estrelas se apagarem. Este sistema entrópico também atingiu a fertilidade e a “Magia” original do processo criatório, e por isso um planeta recém-nascido necessariamente será mais “fértil” que os planetas velhos, seu magnetismo muito mais potente e sua Magia muito mais presente e poderosa, embora lentamente caminhando para sua cessação, como tudo o mais na Lei da Entropia.

“Sepul” foi a cidade de um outro planeta onde duas crianças tiveram prova da destruição total que pode resultar da Magia utilizada por um agente das trevas.

Logo, a ideia aqui é que nos primórdios da Terra, com toda a Magia fervilhando viçosa como o enxame atrás da abelha-rainha, tudo o que existia tinha um gigantesco e profundo encantamento, tudo estava “encantado” ao extremo, e por isso até um pé-de-gilete poderia nascer. Ao contrário, com o passar do tempo, tudo foi esmaecendo, definhando e perdendo força, até que restou apenas um “suave” encanto, que Nazareno de Brito decantou em seu poema. Eis então que os olhos acesos dos lewisianos podem ver, ouvindo “Suave é a noite”, que tudo ainda possui um “restinho” do encantamento original do Tellus primitivo, que Deus faz brotar em todo planeta recém-nascido. E veem também que este suave encanto está perto do fim, pois perto está o Senhor de voltar a este mundo moribundo, o qual ficará tal qual Sepul, antes do Salvador o transformar em novos céus e nova Terra, novamente cheia de encanto.

É óbvio que a ideia de Lewis não é a visão científica de um planeta incipiente, pois a Ciência jamais identificou a Magia como uma das fontes de energia da infra estrutura de um corpo celeste, e se chegasse a identificar, não lhe daria este nome por ordem expressa de sigilo dos militares chefes dos governos a quem supostamente servem em suas pesquisas. Noutras palavras, um portentoso dado ficaria de fora das pesquisas públicas, e assim ninguém saberia a razão pela qual Lewis contou a história do pé-de-gilete, e porque confiou tanto em sua fonte.

Neste ponto talvez já possamos esperar um palpite mais firme dos leitores acerca da frase tipo “arquivo-X” encontrada na versão de Nazareno de Brito, se e porquanto a versão lewisiana de um planeta incipiente aponta diretamente para ela, muito além do que pode supor o homem pós-moderno e muito aquém do que revelariam os militares ocultos por trás dos homens de ciência. Com efeito, alguém já arriscaria um palpite?

Não há dificuldade aqui. A versão brasileira de “Tender is the night” sem dúvida incomodou bastante os chefes invisíveis do Sistema de Sigilo Mundial da Verdade (doravante “Cover-up”), e eles sem dúvida se surpreenderam profundamente – se espantaram – com o fato de uma “reles” versão ‘tupiniquim’ chegar a apontar o dedo diretamente para algo tão secreto quanto a “Magia Subliminar de Todas as Coisas”, ou quanto a “Magia mais profunda de antes da aurora do tempo”, para usar uma expressão de CS Lewis.

Portanto, ao dizer em alto e bom som ou bem no meio – bem no estribilho – de uma canção belíssima, que “TUDO tem suave encanto”, Nazareno de Brito apontou para uma realidade invisível aos olhos modernos, mas 100% presente neste planeta, tão bela e tão sutil quanto um beijo de criança, mas quase tão pouco concreta em comparação com o encanto que há num planeta incipiente ou recém-nascido, ou com o que havia em Tellus no princípio da vida, mais ou menos há dois bilhões de anos.

Ser capaz de ver que TUDO tem um encanto já transcende a média de sensibilidade das almas mais sensíveis de nosso tempo, e a maioria enxergará isso como uma mera utopia poética, certamente tão arcaica que nada mais traz de vantagem ao seu expositor. Todavia e inobstante, ser capaz de ver que tudo tem um SUAVE encanto, que um sutil encantamento perpassa todas as coisas, aí sim, é não ter perdido quase nenhum dos minúsculos fios de prata que unem todas as almas entre si e entre as estrelas, enquanto mensageiras secretas das histórias do Paraíso.

Longe de pensar em panteísmos e animismos infundados na verdade bíblica, o suave encanto tece com o próprio Deus a extasiante teia da realidade subjacente ao cotidiano, provando que o panorama vislumbrado pelo olhar humano não passa de uma miragem insípida, onde seus contornos e retornos trazem tédio, decepção e indisposição. Ao contrário, o suave encanto de todas as coisas permite o sorriso de uma criança com o mero anúncio de um passeio no parque, bem como acrescenta ao rosto da mãe o deslumbramento de uma tarde fagueira, gozando a paz que ela já não encontra em casa. E se insistir e tiver boa atenção, ela também poderá ver o melodioso cintilar do orvalho na palma da mão das folhas, bem como o tilintar argênteo de uma minúscula orquestra de invisíveis guardas florestais, e compreenderá a alegria do filho num programinha “tão sem graça” para os adultos. Se chegar a ver isso, ela nunca mais será a mesma pessoa e nunca mais arranjará desculpas para não ir ao parque com os filhos.

Num de seus livros, creio que em “The Great Divorce”, Lewis explica que pelo Reino de Deus “correm” muitas histórias, experiências e “benedicências”, que poderíamos entender como “rumores”, as quais fazem chegar, aos mais distantes rincões do cosmos, todas as ocorrências relevantes das ações e operações de Deus no Multiverso, cujas conversas alcançam o profundo da mente humana, de modo sutil e subconsciente, chegando até a permitir a ocorrência de sonhos lúcidos, bem como a sequência deles, até que a realidade também pareça sonho.

Lewis então explica que na realidade, as histórias que perpassam todas as eras e chegam até nós (por exemplo, histórias da criptozoologia e das “lendas sertânicas”, como as chamaria o grande Elomar Figueira Mello), não se tratam de meros boatos, “fofocas folclóricas” ou invencionices populares de gente desocupada, mas sim a “reverberação de notícias” trazidas de realidades fora da Terra, ou contadas ao pé do ouvido dos campesinos humildes, ou sussurradas sem rosto em boas noites de sono, as quais podem ser veiculadas por agentes de Deus (anjos e arcanjos) e perpassar o tempo e as comunicadas humanas com toda a aparência de ter sido contada a primeira vez por um boateiro desempregado.

Enfim, era este o modo como Lewis entendia a Realidade superior que não se coloca visível a olhares “contaminados”. Com o olhar certo e límpido, ele nunca deixou de ver o encantamento presente em todas as coisas, e foi por isso que escreveu – narrou – as “Crônicas de Nárnia”, uma história extraída dos desenhos de uma caixa de bombons. E ele foi tão superior à visão materialista da pós-modernidade que permite perguntar se os apóstolos de Jesus também viam a Realidade que Lewis via, e se viam, porque a esconderam nas entrelinhas do Novo Testamento. Talvez seja porque confiaram tanto no indisfarçável “estilo” de Seu Autor que julgaram desnecessário registrar que tudo tem suave encanto.

 

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Quando um filme pode substituir o texto canônico

Sendo a pregação do Evangelho a heroica tarefa de anunciar a salvação e o Reino de Deus a todos os povos, uma obra prima do cinema pode muito bem “substituir” o Evangelho escrito, para a ira dos fundamentalistas.

Biblia-TEB clássica e filmadorasUma verdade hoje em dia já salta aos olhos do crente mais preparado no discipulado cristão, a saber: que se na época de Jesus houvesse toda a nossa atual tecnologia de audiovisuais, se as ruas da antiga Jerusalém tivessem, como hoje, mil câmaras filmadoras nos postes, e se os próprios apóstolos andassem com câmaras filmando tudo, o filme que eles produziriam seria MUITO MELHOR e muito mais preciso do que os Evangelhos canônicos, que só foram manuscritos, e apenas manuscritos, feitos “in memoriam”, décadas depois dos fatos necessários à comunicação do plano de Deus.

Mas não é todo crente que pensa e crê assim. Em nosso tempo, como no de Jesus, há milhares senão milhões de cristãos aferrados à tosca ideia de que SOMENTE o texto escrito tem valor canônico, e pior, que este valor até deve fazer “vista grossa” para os ‘plausíveis’ erros de tradução, bem como para a interpretação proselitista dos editores bíblicos de cada denominação, e até para as falhas de memória dos próprios autores do texto sagrado, esquecendo que os originais da Bíblia foram perdidos e que as Escrituras que temos hoje são cópias, de cópias, de cópias das segundas cópias!

Tudo isto nos traz de volta ao “filme original” feito pelos apóstolos, 100% fiel aos fatos, em nossa “fantasia consoladora” dos cristãos bem preparados teologicamente. Porquanto o filme mostra até O ROSTO de Jesus, do verdadeiro ‘Yeshua’ (i.e., o Nazareno aos 30 anos!), sendo batizado por João Batista nas águas do Jordão, e mostra também quando o “Pombinho Branco” pousou sobre os ombros de Jesus e depois sobre os ombros de João, com “a Voz” a dizer: “Este é meu Filho Amado a quem deveis ouvir”. A partir daquele dia, tudo o mais foi filmado, e a vida do Nazareno agora não tem mais segredos, embora o filme não mostre o que Jesus esteve fazendo dos 12 aos 30 anos! (Afinal, o que importa, não é? Se nós “temos” tudo o mais em filme?)…

Filmando In Loco-1Pois bem. Se o leitor está entendendo a nossa “fantasia”, vou estarrecer muito mais os ouvidos fundamentalistas quando disser que no Século XX, houve um homem que trouxe para o mundo um pequeno trecho “do filme original da vida de Jesus”, e aquele trecho substitui perfeitamente o trecho do Evangelho ao qual se refere, ou no mínimo suplanta todas as pregações modernas acerca daquela passagem terrível da vida do Nazareno.

O homem que realizou tal prodígio se chama Mel Gibson e, antes que falem mal dele, temos que ser educados biblicamente e dizer que até um hipócrita merece “ser seguido em seus conselhos”, como Jesus explicou em Mateus 23:2-3; e que até as pedras clamarão e até os burros podem pregar a Verdade de Deus, como o filme original da fantasia mostrou acontecer com a jumenta de Balaão, numa de suas (re)tomadas ao passado.

Mel Gibson chamou o filme humilde e prosaicamente de “Paixão de Cristo”, quase eclipsando-o por dar-lhe nome igual ao de tantos outros filmes sobre a Paixão, porém justamente aí suplantando-os todos, pois nunca ninguém jamais exibiu (expôs, desnudou) as últimas horas da vida de Jesus com tanta crueza, dureza, frieza e emoção, ao mesmo tempo, iluminando com máximo realismo a natureza bruta do ódio humano herdado do inferno (Hades) para onde Jesus se dirigiria após a crucificação!

Eu fiz tudo isso por vocêE fez tudo isso de tal modo que conseguiu uma unanimidade mundial: NINGUÉM assistiu àquele filme sem (con)doer-se e sem coparticipar intimamente de todo o sofrimento da via crucis, promovendo, a partir daí, um trampolim para o primeiro degrau de uma conversão genuína aos pés do Senhor. Quem, afinal, poderia assistir tanto sofrimento, tantas chicotadas, tantas bofetadas, tantas blasfêmias, tantas cusparadas, enfim, tantas torturas infligidas a um inocente, sem que seu coração não desse sinais de piedade ou revolta? E pior: a magia perfeita daquele filme era justamente conduzir os corações à introjetar as dores da via sacra, de tal maneira que sua empatia gritaria forte em cada ouvido presente àquelas cenas sangrentas: “Eu fiz tudo isso por você!”, ou, um pouco mais leve, “Ele fez tudo aquilo por nós!”… – Eis aí o portentoso milagre operado por Mel Gibson, se é que o leitor quer continuar a crer que tudo veio da cabeça de Gibson, como se Deus nunca pudesse usar um artista de Hollywood ou um diretor de cinema para levar aquela Palavra que nunca volta vazia.

Isto posto, voltemos ao que tratamos no início. Ora, quem quer que tenha lido 4 vezes os 4 Evangelhos, e ao mesmo tempo tenha assistido 4 vezes a “Paixão de Cristo” (cada 4 desses seria o ideal em cada caso), deverá agora estar boquiaberto, inquieto, espantado, muito mais que admirado, verdadeiramente pasmo, com a luz que aquele filme fez incidir sobre as cenas descritas à mão pelos autores canônicos, e também com o tremendo esclarecimento ensejado à sua fé em Cristo, na intimidade das relações que suas emoções trocam com sua Razão, quando até a voz de Deus ficou mais clara e lhe disse: “Foi assim mesmo que meu Filho sofreu, foi assim mesmo que Ele passou pela via sacra e é assim mesmo que vós deveis entender que Ele entregou tudo por amor de vós, e tudo isso sem exibir sua dor para salvar seus próprios inimigos após seu último suspiro na cruz!”.

Maria não chora-04“Todas as cenas retratam os fatos descritos de memória pelos homens que escolhi para deixar um registro histórico da passagem de meu Filho pela Terra, e ainda o fazem com muito mais destreza que eles, pois você sabe que uma imagem vale mais que mil palavras. Mil imagens em movimento (é isto que é o Cinema) valem ainda muito mais, e é por isso que lamento não haver, à época de meu Filho, câmeras que tivessem filmado aquilo tudo. A partir de agora, você já sabe que a minha Palavra não está amordaçada (II Tm 2,9b) e que ‘havendo Deus outrora falado muitas vezes e de muitas maneiras aos pais pelos profetas’, falou agora mesmo de muitas maneiras aos filhos por meus filhos de Hollywood, minhas pedras falantes”.

“Porém creio que ainda há mais um detalhe daquele filme que merece uma reflexão. Você já se perguntou: ‘Por que Maria não chora no filme de Mel Gibson? E será mesmo verdade que ela nunca chorou na via sacra?’… Sim, é verdade. Ela não chorou mesmo. Pelo contrário: muitas cenas filmadas chegaram a mostrar alguma coisa como o esboço de um leve sorriso inconfesso, e a magistral cena (note: uma cena não descrita pelos evangelistas canônicos) em que Maria, ‘quase deitada’ no chão ensanguentado do pátio onde seu Filho foi chicoteado, estava ali como que a ‘banhar-se’ no precioso sangue, lavando-se onde todos nós deveríamos nos lavar… Enfim, aquela cena valeu todo o filme e todos os evangelhos oficiais!”.

Mas por que Maria nunca chorou no filme? Aliás, por que Maria não chorava ao longo de sua trajetória como Mãe do Salvador? Ora, aquela mulher podia possuir pecados como qualquer outra maria-dos-josés, e nem ela mesma escondeu isso quando falou que Deus era o seu salvador (Lc 1,47). Mas o que ela não tinha de jeito nenhum era qualquer mínima inconsciência de sua Missão, e foi a sua precisa e minuciosa consciência missionária que lhe habilitou, em primeiro lugar, para ser a grande primeira evangelista e a futura Rainha do Céu. Ela era, afinal, alguém que possui “alma de cachorro” (como explicou CS Lewis) no melhor dos sentidos caninos, a saber, uma personalidade insone, atenta a tudo, humilde ao extremo com as coisas humildes e profundamente responsável, levando tudo a sério em sua vida “infeliz”. Enfim, a resposta também ficou clara nesta belíssima canção: veja AQUI.

Maria prova que é 'Guerreira'Logo, e plenamente consciente de tudo muito mais do que ela, Jesus “sacou” logo quem era a sua mãe, e jamais se deixou abater por alguma hesitação ou desânimo da parte dela, pois Ele mesmo apostava todas as suas fichas na fortaleza de Maria, que hoje também está merecidamente chamada de “guerreira”. Muito mais forte que José (em termos anímicos, óbvio), ela acompanhou par e passo todos os passos de seu Filho, mesmo quando não estava presente em algumas de suas “tresloucadas” missões, como aquela de dormir “boiando” no meio do mar e bem debaixo de uma tempestade!

Finalmente, o filme de Mel Gibson expõe essa Maria Guerreira, esta mulher fortíssima que a pós-modernidade talvez quisesse blasfemar de salto alto ou de “sapatão”, mas que tinha uma feminilidade tão profunda que atraiu até anjos (Ap. 12,13) que outrora caíram com outras mulheres super femininas. A filmagem de Gibson (que parece ter voltado no tempo e filmado in loco) explicita cenas de Maria que os evangelhos jamais teriam valorizado, ou cuja memória recuperada depois de décadas poderia perfeitamente esquecer! Seu rosto não era belíssimo mas sereníssimo, com a sobriedade de saber que aquilo tudo que ela via na via sacra era a Missão de seu Filho e Salvador, e que todo o seu sofrimento deveria ser encarado como mínimo diante da glória que haveria de vir a ser revelada nela e nEle, como Paulo explicou aos romanos (Rm 8,18). Lágrimas? Lágrimas em Maria? Não brinca. Para quê e por que um filho de Jesus iria chorar? Certamente foi olhando para os olhos dela que Paulo escreveu aos Filipenses: “alegrai-vos, outra vez digo, alegrai-vos”…

 

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E se a Ciência inteira for uma grande mentira?

A cada dia que passa a realidade apresenta sinais crescentemente inquietantes de que aquilo que chamamos “Ciência” não passa de um mega esquema de ilusão e desinformação, ao ponto de habilitar qualquer loucura oposta como uma opção logicamente digerível.

Ciência como grande mentiraPara nós que fazemos esta Escola Teológica, a pergunta do título agora já não traduz mais nenhum espanto ou horror. A pergunta-título deste artigo já não aponta mais para um horizonte longínquo e enevoado, cheio de dúvidas e temores de erro fatal, a qual nos abordava com a violência de um cerco policial para nos impedir de olhar ou mesmo pensar em qualquer realidade diferente do teatro inventado para “aquietar insurgentes”. Enfim, a pergunta do título agora nos precipita no colo de antigos mestres independentes e não alinhados à Academia, nos incitando ao mesmo tempo alegria e insegurança, dada a aparente solidão da decisão por nós escolhida.

Com efeito, qualquer que fosse a equação derivada de tamanha ousadia, seu resultado mínimo seria nos escancarar o espelho do mistério, do qual emergiriam, no mínimo, as seguintes questões: se tudo o que a Ciência lhe informou carece de substância lógica e factual, quem mais lhe ajudará nesta terra na obscura trilha da verdade? Ou qual fonte lhe jorrará para que se beba a água pura do saber verdadeiro, no qual nunca há engano e ocultação?… Eis então desnudada a ocasião única e singular do impasse maior da mente humana, a saber, continuar confiando num instrumento enganoso e interesseiro, ou abandonar todas as falácias maquiadas daquele instrumento e seguir intuições e fontes desprestigiadas pelos doutores do engodo?

E mais: dada a megalomania deste imbróglio, e dado o longo tempo em que ele está em vigor, talvez nem seja mais possível contar com “fontes quentes” do presente, devido o risco de elas mesmas terem sido contaminadas com toda a falaciosa “doutrina da supremacia científica”, e assim não mais estarem puras o suficiente para garantir a segurança do investigador. Neste caso, até mesmo os bons autores cristãos da modernidade (com as honrosas exceções de um CS Lewis, um Chesterton ou um JB Phillips) terão que ser aferidos por fontes muito mais antigas, com o uso compulsório da lógica dedutiva para ensejar um mínimo de segurança cognitiva.

Ciência e fé em harmonia-Felipe AquinoMas o que temos em mente agora, propriamente dito, como ponto de partida para asseverar tais deduções? Temos em mente apenas a Astronomia moderna, por assim dizer, para usar apenas um exemplo de desinformação ou má informação promovido pela Academia, embora pudéssemos entrar também em campos como o da Física, da Biologia, da Zoologia, da Arqueologia, da Medicina, da Psiquiatria e até de engenharias como a Eletrônica e a Robótica. Porquanto foi na Astronomia que os grandes absurdos lógicos começaram a pipocar nos quatro cantos do mundo, ou nos bastidores das melhores universidades do planeta, formando uma verdadeira “corrente invisível” de sintomas comprovados, a cada dia mais tendentes a uma aproximação e uma conscientização organizada dos vários indivíduos responsáveis pelas pesquisas “não autorizadas”.

O auxílio de nomes como CS Lewis nos foram úteis para ter, há muitas décadas atrás, um insight despertador de realidades outrora desmoralizadas pelos interlocutores “infantis” que primeiro as mencionou, sem contudo gerar qualquer segurança ou interesse em cabeças adultas, como sempre acontece quando um “cientista” ouve uma história aparentemente vinda de uma criança. Porém CS Lewis nunca menosprezou e muito menos desprezou “histórias de meninos”, constituindo-se num dos primeiros autores modernos a fundamentar altos postulados científicos com base em “intuições de crianças”. Estava ali aberta a porteira da verdade real, a partir da fonte inesperada da infância.

Foram as crianças as primeiras a imaginar que os animais talvez entendessem os humanos, e talvez estivessem mudos por algum processo “preventivo”. Foram as crianças as primeiras a imaginar que o céu seria feito de vidro, que o Sol não era tão quente nem tão maciço, e que os planetas seriam enormes seres vivos, ou bactérias de um gigante adormecido além do firmamento. E melhor, elas mesmas estavam ajudando a Ciência mentirosa a ver o quanto a mente infantil tem lógica, quando começaram a dedilhar teclados de computadores com muito mais esperteza do que os adultos, muitas vezes descobrindo funções que os adultos só viriam a aprender em cursos universitários.

O que é uma estrela - Aula-01Enfim, onde foi que a mente infantil entrou vitoriosa na argumentação científica da Astronomia moderna? Ora, com a noção inquietante de que a Ciência talvez não tenha sido criada necessariamente para informar, e sim muitas vezes para desinformar, alguns cérebros inexpressivos ou sem qualquer prestígio científico, ficaram muitos anos desempregados (isto é uma praga no mundo todo, pode apostar!) e por causa disso tiveram muito tempo para pensar e pensar e pensar, e, neste particular, foram muito além dos cientistas patrocinados ou funcionários de carreira, que mal tinham tempo para examinar coordenadas paralelas ao próprio objeto de estudo que seus patrões lhes incumbiram. Aconteceu com eles o que era regra geral com os “pensadores” antigos, que só chegaram a ser de fato pensadores ou filósofos justamente porque tinham muito tempo para pensar (bons tempos aqueles!).

Neste caso, antes de tratar da contribuição “das crianças e dos desocupados” para o avanço da Ciência (leia-se aqui o “descortinamento da realidade”), devemos começar com a questão das velhas indagações filosóficas, que sempre foram o grande estopim da descoberta da verdade. E podemos nos adiantar das primeiras questões e fazer perguntas “de segundo grau”. Senão vejamos alguns exemplos. Perguntemos: “Ora, e se aquilo que chamamos ‘cura’, não for uma cura de verdade? E se aquilo que chamamos ‘lua’, não for de modo algum um satélite natural da terra? E se o que chamamos ‘terra’ não for de modo algum um planeta? E se aquilo que chamamos ‘sol’ não for de modo algum uma estrela? E se aquilo que chamamos ‘tempo’ não existir? E se aquilo que chamamos ‘espaço’ for mais denso que o aço? Enfim, e se a nossa própria visão das coisas não for uma ‘visão’ de nossos sentidos, mas sim uma abertura de nosso espírito?”…

Eis aí o estopim da presente reflexão. Particularizemos, para efeito de reduzir o texto final, a reflexão a algumas descobertas científicas da moderna Astronomia. Para tanto, bastará para nós uma investigação acerca dos planetas e estrelas em geral, que atualmente são ‘o xodó’ dos mais célebres astrônomos, quase sempre sendo eles também estranhamente célebres “céticos de carteirinha”. Então, voltemos a perguntar feito crianças: “E se os planetas e as estrelas não forem aquilo que aparentam ser, ou melhor, se não forem aquilo que a Ciência quer nos fazer crer que são?”…

Coração pulsante de GAIAPara o leitor ter uma ideia de tamanha ilusão (uma mentira do tamanho das estrelas), e desde que James E. Lovelock chamou nosso planeta de “Mãe-terra” ou Gaia, estão pipocando notícias as mais bombásticas dando conta de que os planetas, as luas e as estrelas não são o que aparentam ser, e muito menos o que a Astronomia diz ser. Prepare o seu coração porque a facada vai ser grande, quando lhe abrir os olhos para a realidade que está emergindo das sombras da “ignorância” (uma suposta ignorância científica, pois pode ser engodo mesmo!), como um submarino emerge para voltar à sua base militar.

O Sol seria oco-03Dentre as notícias atuais desta “Astronomia Secreta” (ou ‘divina’), aquela que mais nos chamou a atenção dá conta da hipótese – até então ‘hipótese’ – de ser o sol um corpo oco, ou que abaixo de sua superfície escaldante haveria um espaço suficiente para conter centenas de planetas terra, o que literalmente destrói tudo o que a Ciência tem nos contado na área da heliologia, e portanto ganhando todos os apupos e críticas dos envolvidos na trama da desinformação (Confira AQUI). Sendo então ocas as estrelas, a visão dos buracos negros fica ainda mais complexa (pois eles talvez não sejam “buracos”) e o “conto da carochinha” de CS Lewis – acerca de Ramandu – ganha status de Ciência, e por isso a revelação bíblica de que as estrelas “descerão do firmamento” até a superfície da Terra (Marcos 13,25) pode ser uma verdade LITERAL das Escrituras Sagradas, como Lewis mostrou no último livro das Crônicas de Nárnia.

A Última Batalha-01Enfim, dada a necessidade de publicizar artigos palatáveis, de um tamanho que não canse, bateu na nossa porta um vídeo muito oportuno acerca deste tema, o qual indicarei agora para complementar este pequeno arrazoado sobre a Nova Astronomia. O vídeo tem o sugestivo nome de “Os planetas e estrelas não são o que se crê” e deve ser visto sem o “preconceito de rótulo” para com o seu divulgador, de cujas credenciais não deve depender a nossa livre investigação da verdade. Aliás, se quisermos ser bons investigadores cristãos, a primeira coisa a fazer é descartar as críticas ao currículo das fontes, indo PRIMEIRO ao que ela conta, para depois descobrir se a fama da fonte tem cabimento, ou se não passa de “intriga da oposição cética”: só assim teremos alguma chance de vislumbrar a verdade que Deus procura descortinar como parte de sua promessa (Ev. de Mateus 10,26).

Finalmente, estando a Ciência virtualmente mancomunada com o Governo Invisível do mundo para não dar conhecimento da verdade à sociedade humana, não será motivo de escândalo para nós “filhos de Lewis” a notícia de que no meio dos filhos de Deus se encontram seres gigantescos e belíssimos, estruturantes do cosmos inteiro, e com os quais Deus organizou a sua Criação por sua misericórdia e por sua amorosa ‘delegação de funções’, como um pai amigo e um perfeito administrador faz em suas obras exitosas. Saber que todo o cosmos aparentemente sem vida possui trilhões de olhos (Hebreus 12,1) a acompanhar a História humana (Lucas 2,13), olhos de fogo que um dia descerão para encerrar a Era de maldade imposta por uma estrela negra aqui encarcerada, agora constitui não mais o terror do universo impiedoso da Ciência, mas a Alegria de um Reino de Luz inefável.

 

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Como a igreja sobrevive ao impacto da nova Astronomia

Observando com atenção a história da compreensão humana acerca da vontade de Deus, não podemos perder de vista o fato da tremenda presunção do ser humano em relação à obra da Criação, ao ponto de tentar manipular a Palavra de Deus para impor uma doutrina antropocentrista.

Gráfico Composição do cosmos2A sociedade atual não faz a menor ideia do quanto ela própria é produto de uma tremenda presunção do coração humano, que jamais parece lembrar a sua pequenez e insignificância na “economia da salvação”, sendo, na verdade, a grande piada do universo, para qualquer civilização de fora que viesse analisar a História da Humanidade terrestre. Mesmo os ditos “cristãos”, estão sempre a esquecer a terrível pergunta bíblica, repetida no livro de Hebreus: “O QUE É o Homem para que dele te lembres?” (Hb 2,6). Esta pergunta, ao contrário do que pensam todos os presunçosos, não aponta para a ‘gigantice’ do Universo, mas sim, para a “minusculice” do Homem.

Pior, como o pecado da soberba entrou no coração de todo mundo e de cada um de nós, nem mesmo os melhores cristãos estão imunes a qualquer juízo divino, seja ele pronunciado no tempo ou fora do tempo! Aliás, a bem da verdade, a soberba encontrada no coração de uma pessoa “mais consciente”, como diz o livro de Hebreus (no coração de alguém que “uma vez foi iluminado, uma vez provou o dom celestial, que se tornou participante do Espírito Santo, que provou a boa Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” – Hb 6,4-5), será sempre PIOR do que a encontrada numa alma “tosca”, ainda rude ou rudimentar em sua consciência cósmica (o chamado “homem natural” – I Co 2,14), e sempre dará muito mais trabalho para recuperar-se, se é que o conseguirá. Foi isto que o autor de Hebreus quis explicar quando disse que tal pessoa estará sempre levando o Cristo de novo à cruz e à ignomínia, e por isso jamais se arrependerá!

Q é o Homem para q dele te lembres2Ora; foi esta presunção apreciada pelos corações “cristãos” que invadiu o seio da igreja, muito antes de nascer o Protestantismo; ou seja, quando a única igreja cristã se sentia tão “importante” no meio da Criação que chegou a acreditar que Deus tivesse construído o universo inteiro – e até o Multiverso, pela visão de hoje – para a exclusiva eleição do ser humano como a mais nobre obra da divindade, debaixo de quem tudo o mais se dobraria, até anjos (se bobear…).

Por causa desse tremendo blefe e dessa tamanha arrogância, a igreja chegou a “inventar” uma cosmologia antropocêntrica, que começava com o Homem no centro (porque Jesus tornou-se homem), depois com a Terra no centro (porque o Sol e todas as estrelas giravam em torno dela), depois com o Sol no centro (quando Galileu foi provado pela Ciência) e, por fim, com a História da “Eleição Especial da Humanidade”, porque foi nela que Deus encarnou! Tudo isso era a “invencionice” ou a visão ‘romantizada’ (romanizada) de uma instituição que queria não apenas impor-se ao mundo, mas também ganhar a confiança do mundo, estabelecendo a noção ridícula de que o Homem, a Terra e o Sol estavam no centro!

Todavia e contudo, se a igreja e toda a cristandade esperava que a realidade estaria esgotada com as últimas pesquisas da Astronomia renascentista, teve então mais um abalo bombástico quando a Ciência começou a usar radiotelescópios e satélites de observação estelar, os quais não apenas deram ao Homem um lugar ainda mais insignificante na criação, mas o relegaram a “um quintal de quinta grandeza” de um único universo, universo este impiedoso e perigosíssimo, o qual poderia ser exemplificado como se nós fôssemos um bando de formiguinhas sem asa, dentro de um barquinho de papel no meio do oceano!

Radio-Telescope-01(Para se ter uma ideia: estamos todos andando trêmulos sobre uma corda bamba pendurada entre dois penhascos cheios de lobos famintos, e ainda ouvindo tiros de rifle vindos em nossa direção! Vejam como se traduz esta parábola: a corda bamba é o planeta Terra, uma massa informe arredondada pela força de gravidade que também movimenta as placas tectônicas constantemente, fazendo surgir terremotos sem aviso; os dois penhascos são os polos norte e sul que trocam de posição a cada novo ciclo magnético; os lobos famintos são todas as ondas de epidemias mundiais que nos atacam, sobretudo moléstias de vetores ou trazidas pelas aves; e os tiros vindos em nossa direção são os inúmeros asteroides e cometas soltos no espaço próximo da Terra, os quais vivem caindo perto de nós e sem poupar casas ou cidades, e se caírem no mar ainda nos afogam com tsunamis! Tss-tss! O leitor entendeu agora a figura das formiguinhas no barquinho de papel?).

Pior, com esta nossa vizinhança cósmica, ou seja, com o nosso próprio Sistema Solar, até então “pacatu pacativorum”, sendo esse lugar terrível e “estranhamente” violento (com toda a enxurrada de asteróides errantes que nele perambulam), a nova Astronomia descobriu que a grande maioria dos outros sistemas solares não possui um cinturão de asteroides nem uma “Nuvem de Oort”, e por isso alguma coisa “errada” aconteceu por aqui, com a qual nosso Sistema Solar se tornou um perigoso campo de tiro e onde seus planetas estão sendo constantemente bombardeados por pedras assassinas! Isto combina com o que nos revelou CS Lewis, pois as fontes dele o informaram de que, quando satanás foi expulso do Céu, veio para este Sistema Solar e aqui, antes de ser aprisionado na Terra, chegou atirando a 3 por 4 e os tiros dele destruíram dois grandes planetas antigos, um que existia além de Plutão, e outro que existia entre Marte e Júpiter! Isto explica o monturo de asteroides, o Cinturão de Kuiper e a Nuvem de Oort!

Tudo isso sem falar que morar NA SUPERFÍCIE de um planeta, seja ele qual for, é sempre um risco enorme (porque ora estamos sendo “assados feito churrasco” pela estrela-mãe, ora estamos sendo petrificados pelo gelo resultante do afastamento dela), e que a miniaturização óbvia da Humanidade perante a vastidão “infinita” do cosmos – a qual nos obriga a ver O Homem como mero “sulfato de flato” – não favorece a nenhuma ilusão confortadora, mesmo quando ouvimos Jesus dizer que “nem um fio de cabelo de vossa cabeça se perderá” (Lucas 21,18), ou mesmo quando Ele disse que “da mão do Pai ninguém será arrebatado” (João 10,28-29).

Campanha 'Cristo a única esperança'Assim somos forçados, a rigor, a adotar o “slogan pungente” de uma antiga campanha de evangelização, chamada “Cristo, a única esperança da Terra”, na qual a ideia básica era pontuar, com a honestidade de um pedido de socorro, a dramática situação humana neste planeta perdido, no qual a História de Jesus (conquanto seja duvidosa para a Ciência cética) constitui a única “saída” para o labirinto minotáurico onde o Homem se viu inserido, e no qual não há nenhuma outra solução para o grave “abandono” do ser humano à própria sorte ou à má sorte. A rigor, nada, n-a-d-a e NADA de fato pode salvar o Homem de seu destino cósmico, mesmo quando este é analisado a nível pessoal e o fim do mundo ainda esteja muito distante dele. Isto é, que O FIM é a regra mais visível e frequente na vastidão do Universo, estando o próprio Universo a caminho de um fim; e se o Homem conseguir viver uma boa vida em seus 70 ou 80 anos, que se dê por feliz e engula a sua miséria com gosto de chocolate perto do fogo. Noutras palavras, os únicos consolos que a vida oferece não passam de meras “traíras”, e por isso o sexo ganhou o status de “tábua de salvação para o tédio da existência”, segundo os libertinos.

Este é o diálogo interior do Homem pós-moderno, bombardeado pelo ateísmo oficial e pelo ceticismo científico, que sepultaram a historicidade dos Evangelhos para o limbo dos contos de fada e extinguiram de vez toda a Esperança, enquanto virtude teologal. Pior, se o cara for inteligente, nem mesmo os cursos, as dinâmicas e os livros de autoajuda lhe salvarão do fantasma da solidão cósmica, e isto vem bater até na igreja cristã, que também estremeceu após as revelações da radioastronomia.

Homem que pisou na LuaPorquanto a história “real” ou realista que a Ciência veio contar é que aquele nobre Homem sábio (o homo sapiens sapiens que pisou na Lua), aquele que um dia inflou-se de orgulho por se situar bem no centro de uma obra de Criação, aquele que tinha a Lua, o Sol e todas as estrelas girando em torno dele, e tinha também sido eleito “um filho especial do amor de Deus”, guiado por uma igreja que era a própria NOIVA de cristo, aquele Homem hoje está mal vestido, trôpego, imundo, doente e agora depressivo, a um passo do suicídio, tendo como única solução uma crença complicada que enfrenta homens de ciência (homens que estudam muito mais do que ele) e que aponta para o retorno de um Deus que jamais revelou quando voltaria e que já está atrasado quase 2000 anos! Sacou o drama?

Com efeito, como foi que a igreja, ela mesma, sobreviveu ao impacto da nova Astronomia, quando seus próprios “doutores” um dia inventaram a ilusão confortadora – leia-se meia-verdade – de que o Homem estava não apenas no centro da galáxia, mas no centro das atenções de Deus, e que a vida afinal não era tão ruim, já que caminhava célere para um encontro com seu Criador? E mais: como foi que a verdade da insignificância do Homem (a Humanidade inteira não passa de um átomo regurgitado da garganta infinita do cosmos) chegou aos ouvidos dos papas, dos teólogos vaticanos, dos pastores e dos líderes de todas as denominações cristãs, quando a Ciência cética entra goela a dentro como um gole de suco doce ou uma colherada de sorvete? Como evitar a debandada de fiéis levados pelo contágio mundano do ceticismo que tem feito a cabeça de muitos (ex)pastores e (ex)religiosos?

O Universo inteiro virará gelo-02Pior: esta “Nova Astronomia” ainda culmina com uma visão aterradora e devastadora da realidade FINAL da existência, a saber: que nenhuma criatura sobrevive ao frio intenso do regelo cósmico (como também não resiste ao fogo), e o regelo é inexoravelmente o último estágio do universo, quando TODAS as estrelas se apagarem! Ou seja: quando as estrelas se forem, só restará o espaço vazio e congelado a bilhões de graus negativos, como se o próprio espaço virasse um bloco gigantesco de gelo impenetrável, pois a única fonte de calor que existe no universo são as estrelas! Isto é: Como se explica que Deus tenha criado tanto espaço para depois condená-lo a um inverno sem fim, tal como a Feiticeira Branca condenou Nárnia? Eis aí o retrato da decepção e da depressão profundas provocadas pela Nova Astronomia, e contra as quais até a fé cristã parece ilógica e absurda!

Pior: como a própria doutrina “cristã”, deixada a mercê da interpretação temerosa de almas em pecado, pôde equacionar e solucionar o drama colossal do aparente “abandono” da Humanidade (que hoje em dia dá provas de si não apenas com a explicitação crescente das misérias humanas – fome, pestes, guerras, pobreza, doenças, fratricídios, genocídios –, mas agora também com a realidade concreta de um universo “infinito”, chamado Multiverso), diante de quem dizem que a própria existência humana pode ser questionada? Enfim, isto basta!

Finalmente, e a bem da verdade, a Humanidade nunca esteve diante de uma realidade tão portentosa quanto esta que o Século XXI descortina, e ela chegou para ficar, doa em quem doer. É um tempo onde a própria noção de “salvação” parece descartar qualquer auxílio do pensamento alheio, e onde o alheio não merece mais respeito, nem quando põe na cabeça uma mitra. Vivemos uma espécie de abandono – para não dizer extinção – do próprio Cristianismo a si mesmo, pois somente ele poderá revelar as chaves para solucionar o drama humano. Não é à-toa que elegemos CS Lewis para nos iluminar o caminho que nem mais as igrejas iluminam, porque ele foi o único a apresentar uma solução que nem mesmo o ceticismo mais fundamentado pode refutar. Lewis apresentou toda a lógica de uma vida após a morte, cuja prova se prova pela impossibilidade de se ir até lá e voltar com ela, como ele voltou. Afinal, se a matéria não dará sinal algum de um mundo sobrenatural, o sobrenatural não dará sinal algum de nos esperar no Além!

 

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Se Deus nos deu Livre-arbítrio, ninguém jamais o perderá

Se houve alguma época em que todos os cristãos andavam e cultuavam juntos, ela se deveu basicamente à correta noção teológica da hierarquia celestial, lugar para onde todos eles necessariamente se dirigiam… 

Crianças brincando livresVoltamos a este tema apenas para tratar do “Livre-arbítrio escatológico”, e aqui restringindo-se tão somente ao tema da “Liberdade dos Santos na Glória”, ou gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Então, sem mais delongas, podemos iniciar perguntando por que um Pai revogaria a Liberdade concedida aos filhos, se eles continuam a viver a santidade e a obediência? Ou qual pai ficaria triste com o pleno uso da liberdade por seus filhos já glorificados?

Com efeito, imaginemos a cena no Paraíso: Deus-pai presente entre os santos incorruptíveis e cada santo curtindo a liberdade por Ele outorgada e ratificada, agindo livremente e gozando da plenitude da felicidade eterna. Então uns santos vêm e vão; outros chegam e ficam; outros cantam e saltam de alegria; outros apenas escutam a orquestra de anjos; outros constroem casas colossais de cristal transcendente, daquelas tão automáticas que eles nem precisam tocar em controle algum para pedir-lhes um favor (elas adivinham o que os construtores/inquilinos querem).

Enfim, ali são vistas e vividas as inúmeras ações de total espontaneidade da parte dos filhos de Deus, em uma agenda interminável de tarefas, todas feitas com amor e sem cansaço algum. Todavia e contudo, há tarefas relativas a atendimento de outras tarefas, e tarefas de atendimento a pedidos de terceiros, dentro e fora do Paraíso.

Terraformação de MarteNeste sentido, como responde o Senhor a tarefas onde ELE é o Terceiro? Por exemplo: digamos que Deus tenha pedido aos anjos a terraformação de um planeta ainda sem vida. Como sua ordem é dada fora do tempo (o Paraíso é um lugar atemporal e extratemporal), os anjos a ouviram bilhões de anos antes do planeta ter sido criado. Então, quando um santo engenheiro ressurreto comunicou que iria ajudar na terraformação, nem precisou comunicar a Deus, e uma conversa com o anjo-engenheiro foi suficiente.

Ao contrário, quando um pedido “sobe da Terra a Deus”, acerca de uma obra que os anjos já haviam negado por ordem do Senhor, o pedido daquele santo engenheiro, com toda a liberdade de pedir, foi conjugado a outros milhares de pedidos de oração, e por causa disso Deus revê sua decisão (Gênesis 6,6) e pode atender à liberdade de todos. Da mesma forma, quando o pedido de uma só alma não encontra plena guarida nos planos do Senhor, mas vem adicionado de um pedido especial de um santo já ressurreto, Deus também pode rever tudo e atendê-lo, como se “revisasse” sua decisão em confiança ao santo ressurreto. Estamos entendendo tudo até aqui? Estamos mesmo? Vamos “desenvolver o argumento”.

Menino Jesus mamando em MariaEntão agora vem aquilo que poderíamos chamar de “o nó cego”. A saber: e se Deus, conquanto pai que não revoga o Livre-arbítrio de seus filhos outorgado ANTES de toda a obra da Criação, tiver decidido não atender a uma oração por acreditar que seu resultado não resultará num bem comum, mas depois receber de novo o mesmo pedido, só que agora o ouvindo de um santo ressurreto presente ao lado dEle?

Ou seja: se uma alma da Terra pediu alguma coisa que Deus entendeu como tendo um provável desfecho ruim, mas logo em seguida o mesmo pedido é repetido por uma alma ressurreta do Paraíso, que o repete EM CONFIANÇA ao primeiro suplicante, como Deus agirá em confiança do ressurreto? E mais: Como Deus se sentiria feliz em negar o Livre-arbítrio a ambas as almas? E se a segunda alma, a do salvo ressurreto, for a alma de sua própria mãe terrena, aquela a quem o Evangelho chamou “Maria”?…

Em primeiro lugar, é preciso entender que Maria está na Glória junto com todos os salvos. Em segundo lugar, que Maria goza daquela Liberdade Total que Deus jamais a negará, como nunca negou o Livre-arbítrio a ninguém! Em terceiro lugar, Maria está num ambiente atemporal e extratemporal, e por isso sua condição de mãe NUNCA deixou de existir ou nunca foi revogada, e toda a experiência pessoal de Jesus aos pés de Maria, lá na casinha humilde de Nazaré, continua em vigor e “em ser” por toda a Eternidade! O Menino Jesus que mamou em Maria ainda sente o gosto do leite materno hoje mesmo, e agora mesmo está ouvindo sua mãe lhe dizer: “fazei tudo como Ele lhes ordenar” (João 2,5)!

Maria-José-Jesus e o jumentinhoAlém do mais e além de tudo, existem muitos motivos para Jesus jamais negar atender um pedido de sua mãe terrena(*). Isso todo católico sabe. Mas o que os outros cristãos esquecem (mas esquecem apenas por distração, pois o fato todo cristão conhece bem) é que um dos motivos para Jesus ter uma atenção especial para com os pedidos de sua mãe é o fato de que, além dEle ser o Salvador dela, ela também foi – e ainda hoje é, no tempo multidimensional da Glória – A SALVADORA DELE, e até arriscou a sua vida para salvá-LO, no episódio conhecido como “o genocídio dos bebês mártires”. E foi assim: quando Herodes viu que os magos do Oriente fugiram dele sem lhe dar a informação de onde estava o Messias-menino, baixou uma ordem infernal para o assassinato de todos os bebês masculinos de até 2 anos que viviam na região da infância de Jesus; e então Maria, auxiliada por José, escondeu o Menino e fugiu às escondidas para longe dali, salvando seu sagrado Filho das mãos dos assassinos de Herodes! Portanto e com efeito, além de salvá-LO, desobedeceu o rei e poderia ter pago sua desobediência com a sua própria vida, como também com a de José!

Maria, bebê-Jesus e o Esp SantoEnfim, em termos bem resumidos, é este o quadro recapitulatório que se descortina no além-mundo da Escatologia cristã. Toda a vida chamada eterna ou multidimensional da existência post mortem se alinha à historicidade desses acontecimentos vividos por Jesus e Maria, e, dada a presencialidade eterna do Reino de Deus, é assim também a fisiologia da hierarquia celestial, coisa que CS Lewis e a Teologia cristã não nos permitem negar! Pior, também não se pode negar que ela guarda uma incômoda semelhança com a “política mundana”, onde o pistolão e o nepotismo campeiam soltos. Logo, como resolver tão terrível impasse? Graças a Deus há uma pedra de toque aqui, como diria Lewis, e Deus nos permitiu ver uma luz no fim deste túnel.

Ora; a política terrestre fere o decoro parlamentar e a decência celestial justamente porque não há um Legislador Santo, nem um Executivo Santo, nem um Juiz Santo no comando da nação! Como a Teologia diz, é o Espírito Santo que santifica todas as coisas, e a ausência dEle é que constitui sujeira e imoralidade, nos atos praticados e nos sentimentos, mas não na fisiologia! O Sistema está correto, mas não os seus agentes!

Santíssima Trindade-03Portanto, sendo o Legislador, o Executor e o Juiz Santo e Perfeito, não há nepotismo algum, pois o atendimento a um pedido é realizado com base no mérito pessoal e principalmente com base nos méritos de Jesus! E ninguém mais no universo possui maiores méritos junto a Jesus que sua própria “mãe atemporal”, e Ele, sendo Juiz Perfeito, a atende atemporalmente (o que significa de imediato), da forma como “tentou explicar” com a Parábola do Juiz Iníquo (Lucas 18,1-8). Eis aí o final do raciocínio. Alguma dúvida?

Todavia e contudo, para não parecer mera incursão antidiplomática ou mera fuga da obrigação de esmiuçar incansavelmente a Bíblia Sagrada, peço aos meus leitores que assistam os seguintes vídeos para consolidar as ideias aqui apresentadas, da seguinte forma: Vídeo 1 (Clique AQUI); Vídeo 2 (Clique NESTE link). Após assistir tais vídeos, dar-me-ei por satisfeito no meu dever de comunicar a fé com transparência.

Finalmente, também peço aos leitores para reler tudo sem pré-conceito religioso, pois é ele o responsável pelas intermináveis rixas entre cristãos, e não questões de doutrina, que quase sempre levam a culpa de nossas ofensas e “odium theologicum”. As feridas profundas e até dilacerações visíveis no corpo de Cristo jamais serão desculpadas pelas “complicações” doutrinárias da Verdade, mas sim pelas rebeldias e iras diabólicas que nutrimos no coração (Jr 17,9 e Mt 15,19-20), quase sempre  alimentadas por falsos pastores e líderes nefastos, únicos a quem Jesus “ofendeu” (Mateus 23,1-36).

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(*) Legenda do asterisco: Um aluno meu me enviou uma resposta “pobre” sobre a impossibilidade de Maria atender a um pedido de oração, simplesmente porque Maria não tem poder algum para atender ninguém. Ele disse: “Desculpa, mas não devemos pedir nada a Maria, ela foi uma pessoa abençoada e só isso só Deus e Jesus tem esse poder”…Eu lhe respondi assim: “NÃO SE TRATA de Maria ter poder, amigo. Claro que não! Todo poder é do Senhor”. Todavia, querido, este Senhor Deus é também Amor Infinito, e sendo amor infinito, Ele ama infinitamente à sua santa mãe, aquela que lhe deu de mamar e lhe salvou da morte no decreto de Herodes contra os meninos menores de 2 anos! Logo, ora, imagine se você fosse Deus e tivesse o coração infinito, e ouvisse sua própria mãe lhe pedir uma coisa… Uma mínima coisa… Ora, será que você iria olhar para ela e dizer: “Mamãe, não posso atender a você porque só atendo pedidos feitos diretamente a mim!”… Pode? Será que isso aconteceria com o imenso coração de Jesus? [Lembre que foi Ele mesmo quem disse “tudo quanto pedirdes, recebereis” (Mt 21,22); e também “a quem te pedir a túnica, dá-lhe também a capa; dá a quem te pede” (Mt 5,40-42): ora se Ele veio para nos dar exemplo (João 13:15), e Ele nos pediu para DARMOS tudo a quem quer que nos pedisse algo, então como Ele iria macular seu próprio exemplo negando um pedido de sua mãe???]… Pense nisso, amigo. Que Deus lhe ilumine.

 

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“Meu eu vai muito além de mim”

Na eterna vigilância interior para aprimoramento e autoconhecimento, um cristão não deve omitir-se perante os sinais que Deus lhe enseja no âmago de nossos sonhos, com os quais grandes lições de vida e salvação nos são dadas.

Astral projectionVolto a conversar sobre “sonhos” devido a duas ocorrências insistentes e contraditórias, aparentemente enviadas à minha memória por quem quer uma solução interior para o problema, e eu só posso atribuir a autoria disso ao autor de minha fé, o Senhor Jesus Cristo.

As duas ocorrências são: (1ª) A insistência com que a ideia de um universo sem Deus, o vazio ilógico do ateísmo, chega e bate em minha consciência, como se eu já não tivesse vencido a descrença que a rigor nunca tive [ressalto que esta ocorrência não parece obra de quem quer me fazer ateu, mas de quem quer que eu veja o quanto o ateísmo é ilógico]; (2ª) A insistência com que meus sonhos noturnos se mostram a cada dia mais realísticos, ao ponto de minha consciência está firme no rumo de enxergar um corpo que não tenho, ou melhor, um corpo muito maior que o meu, mais poderoso, mais etéreo e capaz de executar ações impossíveis a um corpo humano comum [lembrando a subida da cascata antigravitacional no último livro das Crônicas de Nárnia]. Pois bem.

Quando a primeira ocorrência chega, como quando chegam cochichos que já conheço bem por não serem de Deus, ela sempre traz um certo mal estar, que sem dúvida deve vir de minha consciência dizendo que eu estou sendo ingrato por duvidar de Deus. Pelo menos é nisso que vou apostar! Não tenho dúvida de que a inexistência de Deus é o maior absurdo do universo, e a persistência desta falácia me espanta por ser uma tentação muito menor que outras, que atingem diretamente um vício que tenho (já quase perdido, graças a Deus!), e que portanto deveriam ser escolhidas com mais frequência pelo tentador e acusador das almas.

Imagem da alma-1É como se você quisesse fazer cair alguém que você sabe ser um alcoólatra e, ao invés de levar-lhe uma garrafa de cachaça, levasse para ele um rodízio de pizza. Enfim, é uma tentação – se é que é – que não entendo ocorrer em mim. Mas talvez eu não me conheça o suficiente… Então vou ficar calado. Pois bem.

Quando a segunda ocorrência chega, não ouço cochicho algum, e já caio direto na situação, geralmente uma cena onde há uma corrida por obstáculos naturais (ruas, muros e prédios) e onde eu não tenho nenhuma dificuldade de escalá-los e até “sobrevoá-los”. Tudo é nítido, aliás, muito mais nítido que os meus olhos abertos conseguem ser, e os muros e os prédios são muito mais concretos e detalhados do que os edifícios que vejo quando saio às ruas durante o dia.

Além de pular fácil por sobre os muros, nunca um poste elétrico foi obstáculo para uma viagem rápida ao topo dos prédios, e nenhum transeunte acha “errado” ou estranho o meu voar-aprendiz, como se eles também voassem e entendessem muito bem que ainda estou aprendendo. Isto me leva a supor, por óbvio, que a prática de voo é uma coisa comum ali naquele mundo, e as pessoas que vejo caminhando nada mais estão fazendo do que dirigir-se a atividades para as quais o voo seria inadequado, como jogar xadrez ou consertar computadores. Eis uma lição literalmente “de passagem”.

Parece que possuo asas

“Em meus sonhos, parece que possuo asas”…

Mas a coisa fica mais estranha é quando enfrento uma situação de conflito, e preciso me livrar de alguém ou de um cão raivoso na rua: minhas pernas, sobretudo a perna direita, move-se quase em círculo – e num segundo – tentando atingir o cão ou o intruso, indo muito além do limite dela e ultrapassando a cama onde durmo ou a rede onde adormeci. Numa certa noite, dormindo num quarto menor e mais apertado entre a rede e o guarda-roupas, estava vivenciando um conflito real, quase uma briga de rua, e tive que usar a perna para atingir um agressor, e não creio que o atingi pela rapidez com que ele se esquivou para trás, e só lembro até aqui (não sei se a briga continuou ou parou ali). Mas o que lembro bem foi que ao tentar atingi-lo com a perna direita, chutei pesadamente a porta do guarda-roupas e a rachei, pois o compensado fino não suportou a pancada.

Numa outra ocasião tive medo, pois, como o agressor tentava sequestrar minha mulher, temi chocar-me com ela em meus movimentos adormecidos; e se eu a puxasse com aquela rispidez, ela teria certa dificuldade de entender aquele gesto como um mero pesadelo, dada a lucidez da história que eu iria lhe contar. Temi também dar-lhe experiência tão negativa, conquanto esta poderia suscitar uma desconfiança capaz de deixá-la intranquila no simples ato de dormir ao meu lado. Enfim, eu poderia contar outros exemplos, quase todos com movimentações bem velozes e desobstruídas de todo o meu corpo, e seriam tantos exemplos que talvez perfizessem um livro de sonhos…

Mas então é aqui que me vem a lembrança da palavra de GK Chesterton, quando ele perguntava: “QUEM nunca sentiu que os sonhos se situam NO LIMITE do ser?”… – Ouvindo agora outra vez esta frase de Chesterton, me vem as perguntas: o que queria Chesterton ao perguntar aquilo? O que ele teria visto de si mesmo nos sonhos dele? O que ele descobriu acerca da ontologia humana que valesse a pena explicar para enriquecer o que o Evangelho contou apenas de passagem a nosso respeito? Enfim, uma chuva de perguntas podem nascer da pergunta feita por aquele escritor genial!

Mas é a questão do LIMITE DO SER que deve suscitar em nós toda a reflexão desta vida. Vou tentar iniciar um arrazoado agora, numa tentativa de resposta ao gênio e certamente na loucura de tentar exprimir o inexprimível.

Cabelos após a RessurreiçãoEm primeiro lugar, nos cabe a pergunta: “o ‘EM SER’ um ser humano envolve algum limite ontológico? Isto é, nosso ser é limitado ou ‘ilimitado’? (Não no sentido físico químico, mas no sentido transcendente). Nossa limitação, em tese, não seria apenas uma circunstância temporária de nosso forçado ajustamento aos limites tridimensionais de nosso universo material? Ou seja: quando a morte chegar, não irá ela nos catapultar para o ‘ilimitado ilimitante’?”… Creio que a resposta para todas essas questões é 51% SIM e 49% NÃO. Porquanto Deus nos limitou como seres viventes enquanto existência finita em dimensão, mas eterna no tempo e onipresente no futuro. Noutras palavras, enquanto seres criados na escala ontológica da Criação, temos o nosso “tamanho” (melhor dizer “nossa incidência ontológica”) circunstanciado às etapas da evolução multidimensional planejada por Deus, com a qual TODOS os seres criados caminham para a PERFEIÇÃO, e com a qual ocupam cada vez mais espaço ou ampliam paulatinamente a sua incidência.

Em segundo lugar, cada etapa desta longa caminhada [cada uma realizada numa realidade diferente, por assim dizer, em uma sequência: pensamento / éter / magnetismo / fogo / água / terra / corpo-matéria / corpo-fluídico ou fantásmico / solidificação / ressurreição / transublimação / trancendencialização e finalmente perfeição incompleta (se é incompleta, é porque continuará para sempre, pois completa mesmo só Deus pode ser)] constituirá o indivíduo em si, e ele jamais deixará de ser a mesma alma, embora com inúmeras incidências de sua pessoa nas diversas dimensões da Criação. Eis ai uma tradução da Eternidade ou da ontologia eterna do Amor de Deus.

É claro que a lista acima, exposta numa “metalinguagem” mistagógica, jamais irá facilitar o nosso entendimento de todo o processo, pois, além de ainda estarmos dentro dele (talvez bem no comecinho dele, como “crianças cósmicas”), nossa própria mente ainda carece de inúmeros atributos de poder que Adão um dia teve e que um dia recuperou, quando saiu triunfante de sua etapa purificadora, o período pedagógico no “Vale da Sombra da Morte”, ao qual a Igreja chamou de “purgação no Purgatório”.

A TransfiguracaoEntretanto nossa mente, mesmo abandonada à própria sorte de uma vida de pecados, ainda guarda seus atributos ‘pétreos’ estruturais (parece que até o corpo físico também guarda alguns atributos transcendentais, os quais vez por outra aparecem em necrotérios – veja AQUI), aqueles que são indestrutíveis na essência do ser, e os quais formaram, formam e formarão aquele único indivíduo, o eu-X, que irá emergir no Paraíso ao final de todas as etapas, junto com todos os outros eus (o Y, o Z, o Zé, etc.). E mais: o ser de cada indivíduo humano do planeta Terra, circunstanciado pelo pecado de Adão, e guardando sua ontologia eterna, jamais pôde esquivar-se de travar algum contato com os limites de seu ser, e é aqui que entram os sonhos ou o papel do sonhar lúcido, que deixa o sonhador VER – com melhores olhos – até onde alcança a sua ontologia ainda humana, à espera de sua “transubstanciação”, i.e., sua solidificação final ou sua ressurreição, no processo geral da trancendencialização desejada por Deus.

Por último, reconhecer que “algo dentro de nós vai muito além de nós mesmos”, e que nossa alma é muito mais complexa do que podemos supor por nosso corpo, sendo este também muito maior do que aponta a nossa estatura física, pode ser a condição “incidencial” de nossa próxima etapa, a qual se deixa entrever em nossos sonhos, reforçando a fé em Deus e a nossa autoconfiança. Na eterna vigilância interior para seu aprimoramento e autoconhecimento, o cristão deve alegrar-se (outra vez digo alegrar-se) sempre perante este sinal maravilhoso que Deus enseja em nossos sonhos, com os quais visitamos toda a Alegria de ser aquilo que somos.

 

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Sonhos: “Ensaio da construção do Céu”

Na esteira do entendimento de uma frase enigmática de Jesus (“Vou preparar-vos lugar”), está a Ciência dos Sonhos completamente explicitada, e ficou muito mais clara com a colaboração genial de G.K. Chesterton.

o-paraiso-oferecido-em-sonhosDesde criança venho observando os sonhos que vez por outra ou agora quase sempre me invadem as noites mais bem dormidas, e, como um Santo filho de Morfeu, descubro a cada dia mais o segredo da mensagem mais bela e mais confortadora das pregações de Jesus. Quase posso ouvir alguém reclamar que a grande mensagem de Jesus foi aquela que indicou claramente o caminho da salvação (pelo menos pela lógica, isso deveria ser assim; e reconhecer que há uma mensagem clara também pressupõe mensagens pouco claras ou até obscuras, no bom sentido, por constituírem uma instrução difícil de distinguir entre tantas afins e ao redor das várias memórias que as registraram nos livros canônicos!).

Porquanto onde estaria clareza no caminho da salvação? Ou onde se poderia identificar, nas Escrituras Sagradas, uma única instrução de salvação que jamais levante dúvida um só segundo numa única consciência humana? Se isto alguma vez hipoteticamente acontecesse, tratar-se-ia de mais um milagre incognoscível, chegado ofuscadamente à embaçada consciência humana, iluminada por um vislumbre pouco inteligível e pouco confiável. Eis que efetivamente não foi a doutrina da salvação a mais simples de digerir (embora seja a mais necessária), dadas as muitas variáveis a ela atreladas, como sugere uma soteriologia bem estudada.

sonhandoO imbróglio metafísico onde se meteu o coração humano após a Queda impossibilitou o próprio Deus de proceder com ações claras à nossa agora turva visão, porque o nosso coração também se tornou para Deus uma coisa turva, e somente com as lentes de um milagre portentoso o Senhor pôde imiscuir-se na História e sugerir atalhos aplainados, sem a correspondente clareza de resposta dos olhos humanos, cujo pecado embotou. Conquanto a Queda tenha erigido no Homem uma cegueira de tal complexidade, e na visão de Deus tenha erigido uma escuridão de tal densidade (uma densidade literalmente infernal), a Palavra de Deus – toda comunicação vinda da Providência – teria que incluir outras mensagens de auxílio, não exclusivamente para a salvação propriamente dita (o caminho da cruz), mas para a salvação da incapacidade mental de captar a própria necessidade da salvação e as tarefas interiores que a possibilitariam, capazes de levar a tarefas exteriores de cura social.

E é aqui que uma mensagem “paralela” (por assim dizer) toda especial brilha nas trevas e retumba com eloquência cósmica, deixando a antevisão de uma tarefa pesada, não nossa, mas de Deus, que só pode ser captada por uma mente que tenha, no mínimo, iniciado seu complexo atalho de santidade em meio às seduções do mundo. Foi como se Deus suspirasse de cansaço e soluçasse, de exaustão, depois de dar todas as instruções e não obter retorno algum das almas confusas. Foi como se Ele, depois de operar centenas de milagres ao vivo, depois de escrever a Bíblia inteira de viva voz, depois de dizer que iria morrer na cruz, depois de ressuscitar ao terceiro dia, e depois de explicar até mesmo como seria o Juízo Final das ovelhas e dos bodes (Mt 25,31-46), ouvisse a Humanidade inteira dizer que não entendeu nada, e que Ele fosse embora como um palrador louco!

24-12-2014 Messa Notte di NataleEntão, depois desse “insucesso” retumbante (talvez haja aqui alguma luz para entender porque o Papa Francisco disse que Jesus “fracassou”… – porque nosso pecado foi tão hediondo que o próprio Deus, que nunca havia experienciado Ele mesmo a vida na carne humana, tivesse ficado “meio opacificado ou meio confuso” entre QUAIS decisões tomar, já que lidava com almas livres), Jesus “desesperou-se” – como aconteceu quando olhou Jerusalém do alto do monte (Mateus 23,37-39) – e disse, talvez sorrindo por fora e chorando por dentro: “vou preparar-vos lugar”… E ali escreveu outras cem bíblias que nunca chegarão às nossas mãos!

Mas dentro de nós, dentro das almas rebeldes que Ele veio tentar salvar, também havia e há alguns ínfimos resquícios da bondade que um dia tivemos em Adão e Eva, e Jesus contava e conta com esses resquícios, ou espera que eles de alguma forma ajudem a iluminar alguma coisa, “facilitando” o caminho para nossos pés trôpegos e andares cambaleantes. Um desses ínfimos resquícios ainda vivos após longos séculos de pecados, embora ainda assim inseguros, é a construção íntima dos sonhos, que nosso adormecer pode ensejar, dependendo do tipo de noite que tivermos após um dia de trabalho pago ou de cansaços não remunerados.

Quando o milagre do adormecer se configura, e se ele pôde ser acompanhado do milagre de algum mínimo relaxamento real, e este tiver podido ser capaz de fazer chegar a mente à fase REM, então o âmago do ser se deixa entrever, ou alguma luz anímica ultrapassa a densa nuvem do prazer de estar na carne, e assim o Homem pode curtir um átimo de si mesmo, ou pode se sentir navegando livre sem um corpo tridimensional, do qual ele nunca tem uma visão clara. Aliás, na maioria das vezes, não são vistos corpos, exceto de terceiros. Há uma estranha sensação de liberdade, capaz de correr ultrapassando com folga qualquer obstáculo, e muitas vezes as ultrapassagens parecem sair do chão, ou as distâncias são vencidas pelo alto, em exercícios de vôo livre sob a admiração de todos os transeuntes. Corre-se em quase todas as histórias, e em quase todas as corridas não há cercas, nem muros, nem postes, nem carros, nem árvores, capazes de impedir nossa ultrapassagem ou sobrevoo.

E quando a cena é mais interior ou mais próxima, na qual nossos braços ou pernas são vistos quase sempre de soslaio, há também a sensação de que braços e pernas podem alcançar uma distância muito maior, como se aquela estranha pele fosse elástica, ou como se seu alvo é que fosse elastecido para perto de nós e assim fosse facilmente tocado, apalpado, batido. E quando nossa mão precisa entrar fundo num longo cano estreito, é como se ela ficasse mais estreita que o cano e nos trouxesse a pérola que nossa infância deixou cair ali. Enfim, tudo prova que nossos limites não são estabelecidos pelo alcance de nossos corpos, mesmo que sonhemos possuindo corpos de gigantes!

frase-cartaz-sobre-chesterton2É aqui que me lembro de G.K. Chesterton, o gênio que ‘converteu’ C.S. Lewis. Num dos livros de “Cheston”, o que mais amei (“O Homem Eterno”), o gênio cristão faz uma pergunta estonteante, aparentemente endereçada a quem está dormindo consciente ou a quem está consciente de que seu sonhar é tão real quanto seu cotidiano… E nenhuma alma recebeu aquela pergunta sem ouvi-la reverberar nos sinos recônditos de suas entranhas, como se estivesse na Terra Santa há 2.000 anos ouvindo os sinos de Belém! “Cheston” perguntou: “Quem não sente que os sonhos se situam no limite do ser?”…

Ora; quem responde Cheston? É óbvio: só os mortos não respondem! Aliás, almas mortas! Almas que ainda não chegaram a ser! Porquanto salvar-se não é apenas deixar de estar perdido para estar salvo, mas é passar a ser um ser que ainda não tinha começado a existir! Salvar alguém não é apenas jogar-lhe a corda em meio à correnteza caudalosa! É antes fazer com que o afogado saiba que não é apenas uma coisa levada pelas águas, mas uma consciência que pode olhar e ver a velocidade da água e a queda d’água ali à frente! Salvar é dar sentido de existir ao afogado; é depois ampliar-lhe a consciência de tal modo que ela levite e saia da correnteza sozinha, observando quão perigosa é a vida sem ver as consequências.

cerebro-dormindoEis porque 99% das ideias de salvação pregadas no mundo são literalmente ilusórias… Porque propõem salvar a quem mal sabe que existe! Era a carpintaria de Fígaro: de nada adiantava fazer lindo o Pinóquio, enquanto este não ganhasse vida. E o boneco também só amaria Fígaro, depois que ganhasse coração de carne. Mas o Salvador também “foi salvo” pelo milagre de uma Queda que não quebrou o Homem inteiro! Lewis disse que na Terra o pecado atingiu apenas duas dimensões do Homem (Mateus 26,41), e que se a Queda tivesse ocorrido num outro mundo que ele conheceu, o primeiro casal de lá teria ficado irremediavelmente perdido, pois teria caído em três dimensões, e aí não haveria mais nada a salvar!

Eis porque aquela palavra de Jesus foi tão crucial e tão certeira: “Vou preparar-vos lugar”. Quem quer de nós que um dia tenha sonhado um sonho lúcido (ou mais próximo possível da lucidez) já percebeu claramente que as histórias vividas nos sonhos são construídas com fragmentos da realidade que ainda se misturam ao desconserto de nossa memória; e, da mesma forma como no cotidiano misturamos lembranças sonhadas com lembranças vividas, no meio do sono pesado a realidade sonhada tenta entrar na realidade dormida e nos mostrar que somos muito maiores do que nossos corpos, ou pelo menos que a realidade é muito maior do que aquilo que nossos olhos físicos enxergam quando estamos acordados! Eis a pedra de toque!

E Jesus um dia sacou isso muito bem, quando Ele mesmo cresceu em graça e em sabedoria diante de Deus e dos homens, e aprendeu pessoalmente COMO a alma humana vai sendo construída, de luz em luz, de ato em ato, de sonho em sonho. Até que um dia Ele, já adulto, deixou escapar um segredo que Ele nem precisava dizer, até porque ninguém iria entender mesmo. Instado a contar para onde estava indo que não podia levar ninguém, só lhe veio à mente adiantar-se muito e revelar uma obra inalcansável pela consciência humana, não apenas por estar no futuro incognoscível, mas por conter elementos de profunda Teologia e por pedir emprestadas “substâncias” de nossa própria alma para que fosse viável! Então Ele respondeu a Pedro: “Vou preparar-vos lugar”, e depois de todos esses séculos, só um Pedro idoso e lúcido, que chega sempre ao sono REM, conseguiria vislumbrar um sinal de realidade concreta na escatologia daquela resposta.

cg-jung-a-sabedoria-dos-sonhosOra; sendo nossos melhores sonhos construídos com “substâncias” próprias de cada alma, capturadas de memórias emaranhadas entre a realidade terrestre e a celeste que um dia tivemos em Adão e Eva, a resposta de Jesus é quase uma parábola junguiana, e termina por indicar que se o Salvador subiu aos céus para PREPARAR um lar especial para nós (“se preparar” aqui tem até cheiro de alvenaria), e se os sonhos lúcidos mostram outra realidade para os nossos corpos, fabricada a partir de lembranças capturadas do passado e do cotidiano, não é inexato afirmar que nossos sonhos são um ensaio da construção do Céu, e as almas que exultarem em cada sonho estão recebendo de Deus um “test drive” ou “uma prévia” do Paraíso, e com ela tendo muito mais chance de gostar do novo Lar que um dia receberão.

Está explicado porque CS Lewis usou de toda a sua eloquência para ensinar que de nada adianta crer em Jesus e não ter adquirido, ao longo da vida, a qualidade benigna de caráter que só consegue ser feliz em obediência irrestrita ao Senhor, cuja virtude só se dá pela prática contínua do bem, que termina por tornar seu praticante realmente bom. É outra forma de ver o bom contágio (“O Amor é contagioso”). É outra forma de ver que as boas obras “salvam”. É outra forma de ver o que os sonhos mostram: os limites de nosso ser neste estágio da Criação, os quais transcenderemos naquele Céu preparado por Jesus e construído com as nossas mais caras lembranças.

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(*) – Há um perigo subjacente à má interpretação deste artigo; porque ele não propõe, de nenhum modo, nenhuma fórmula artificial de se ter sonhos lúcidos, nem na forma como o Dr. Waldo Vieira ensina, nem na forma como a indústria farmacêutica está propondo agora. Ter sonhos lúcidos somente é citado na exata expressão de GK Chesterton, que enxergou em suas noites sóbrias as realidades alcançadas por seu corpão de mais de 2 metros de altura, antevendo suas viagens ao Paraíso construído por Jesus. Tentar qualquer outra via pode ser, inclusive, um mergulho no não-ser.

 

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