A Dolorosa Tentação de Cristo

Preparado para assumir a mais difícil missão de sua própria vontade, o Filho de Deus passou por uma tentação essencial, que atacava a Sua alma, no mais precioso dos seus sentimentos

Paixão de Cristo_001A Humanidade não sabe o que Jesus sofreu. Teve apenas uma breve noção, dadas as revelações bíblicas contadas nas igrejas ou lidas em casa, sem maiores aprofundamentos. Alguns filmes antigos também mostraram alguma coisa, mas nada mais substancioso neste mister. Só no filme “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, a Humanidade pôde ver, quase que in loco, o tamanho do sofrimento do Cristo, embora ali aparentemente nada se argua de uma Tentação específica. E pior, a maioria das ideias passadas na mídia querem impor a noção de que Jesus “cedeu” às tentações como qualquer um de nós, como pano de fundo para implantar o edonismo e a libertinagem. Este parágrafo contém, portanto, apenas uma breve introdução ao presente arrazoado.

Dado o tamanho obrigatório de um artigo, nosso argumento enfocará apenas a Tentação de caráter sexual, pegando carona naquilo que a mídia tem colocado de modo mais frequente e mais ao sabor das massas, depravadas por longos anos de atenção dada à Televisão e à imprensa populista. A pergunta, então, que este artigo responde, seria esta, desdobrada em duas: “Qual tentação sexual Jesus sofreu e até que ponto Ele a enfrentou?” (corro para explicar que esta pergunta está no singular porque este autor não tem nenhuma dúvida do caráter santo e heterossexual do Nazareno).

A Tentação dirigida a Cristo foi violenta, em um sentido que quase não cabe em nossa compreensão, e aqui apenas tentaremos iluminar as áreas mais obscuras do fato, sem muita esperança de êxito para leitores pós-modernos, acostumados a ver um só lado do processo da Tentação, ou o lado mais fraco deles mesmos.

Não há saída para o que vou dizer agora: na investigação da Tentação de Cristo, não há outro documento que mereça mais crédito do que a Bíblia, e ela mesma carece de outros dados não abarcados por ela (Jo 21,25 e I Mb 9,22) e também carece de interpretação especializada, que só poderemos colher da fina fonte da Revelação e da Tradição. Destas fontes, extrairemos os registros que podem dar margem a outros ângulos semânticos, lembrando que as Escrituras não foram feitas para expor a vida íntima do Nazareno, e muito menos as coisas relativas à sua sexualidade. Isto, por óbvio, deixa um campo reduzidíssimo para tratarmos, e a imaginação do leitor vai ter que assumir a mesma liberdade que assume quando assiste a um filme de ficção científica, daqueles bem mirabolantes.

apedrejamento

Pelo que diz a Bíblia Sagrada, no Novo Testamento, poucas mulheres tiveram momentos de intimidade com Jesus, e o destaque é para a sua Mãe, Maria Santíssima, e uma outra Maria, aquela que nasceu em Magdala e que foi trazida a Jesus pelos apedrejadores do farisaísmo, que atirando muitas pedras queriam por uma pedra de tropeço para Jesus cair. A mulher ali aviltada foi tratada como prostituta, mas não se pode afirmar com segurança que vendesse ou que teria vendido seu corpo ao homem com quem foi pega em adultério, e esta expressão indica que ela pode ter sido apenas uma mulher livre que provocou uma traição para com a mulher do seu amante.

Após o tão conhecido episódio onde Jesus oferece o seu perdão (veja ESTE vídeo sobre o caso), Madalena passou a acompanhar os discípulos e seu Mestre e acabou se tornando uma das peças-chave nos trabalhos de evangelização planejados por Cristo, ganhando ao final status de santa pela constante proximidade com o Santo dos santos, conforme atesta a Igreja. Isto posto, é a partir da constância desta “invejável” companhia que poderemos extrair sinais (nem sempre muito claros) que possibilitam deduzir o argumento deste texto, sob incômodas e persistentes incertezas.

A Tentação de Cristo é o foco de nossa análise, e também o texto mais claro. Ali a Bíblia expõe 3 tentações endereçadas a Jesus, e elas são as seguintes: (1a) Matar a fome (transformar pedras em pães); (2a) Ganhar riqueza e poder político; e (3a) Desafiar ou blasfemar de Deus.

Não há em toda a Escritura e muito menos na Tradição, nada que nos induza a crer que Jesus tivesse algum tipo de anomalia em seu corpo que o impedisse de sentir o desejo sexual típico do corpo de animal macho humano (que a rigor nada tem de pecaminoso, conquanto feito pelo próprio Deus para a preservação da espécie) e a descrição dEle mesmo acerca de um eunuco é o máximo que podemos ir para termos alguma noção de como era Jesus. O problema é que um eunuco físico (o homem castrado para servir ao seu rei) ainda pode sentir o desejo – que brota confuso entre as sinapses neuronais – e isso explica porque tantos eunucos passaram a ser homossexuais.

Já o eunuco espiritual (caso que se aplica a Jesus) é aquele indivíduo cujo espírito possui poder suficiente para “castrar” o desejo de sua mente, de tal maneira que seu corpo não reagirá como o corpo comum dos animais humanos diante da libido. Eis aí a chave do segredo, sem dúvida. E o caso morreria aqui se não houvesse uma questão teológica superior interferindo no arrazoado, e ninguém pode tapar os ouvidos a ela. É a seguinte.

Maria chora na cruzA Bíblia diz literalmente que “Ele em tudo foi tentado” (Hb 4,15). E diz nas entrelinhas que Ele teria que sofrer de tudo para poder “atender” – no sentido de sanar – a cada sofrimento humano, o que inclui cada uma e todas as tentações. Ele tinha que sofrer toda dor, e toda a Sua dor teria que ser a maior (pois era preciso que Ele experimentasse todo o sofrimento do Inferno para poder pagar a conta de todos os pecados da Humanidade que para lá merecia ir). As duas coisas implicam em que Ele foi experimentado por Deus em todas as coisas que um homem comum experimentaria, menos o pecado (i.e., que Ele passaria por tudo e sofreria tudo, mas sem cair, sem “ceder” ou sem fraquejar). Então, por óbvio, Ele sofreu tentação sexual e, para que a tentação fosse a maior e a mais dolorosa possível à rejeição e à condição divina-humana dEle, Ele precisaria ter a libido viva e superativa, embora sob o rígido controle de sua mente 100% espiritualizada. Isto é ponto pacífico, ou condição sina qua non, sem a qual a Teologia da Expiação Vicária não se sustenta. Porquanto a “expiação vicária” é, a rigor, a substituição do réu no banco do tribunal e a “empatia perfeita” com ele, suportando, no lugar dele, tudo aquilo que lhe caberia como pena. [Claro que mesmo assim, mesmo Deus fazendo todo o esforço do mundo para que seu Filho experimentasse toda dor, não foi possível esgotar o repertório de dores da Terra, já que Jesus morreu aos 33 anos e jamais experimentou os sofrimentos da vida adulta e da velhice, incluindo o desgaste físico e as “vergonhas” dele decorrente, passadas pelos velhos – o que seria Jesus com Alzheimer? O corpo físico de Jesus poderia sofrer Alzheimer?].

Isto significa que duas coisas seriam impossíveis e uma possível: (1a) que se Jesus tivesse apenas a libido e não fosse tentado, não teria experimentado a guerra direta contra satã; (2a) que se Jesus tivesse sido apenas tentado, mas sem libido, também não saberia na prática o que é ser um ser humano; e, finalmente (3a), que somente se Jesus tivesse a libido bem viva e fosse tentado, poderia então conhecer na prática todo o poder de um espírito entregue nas mãos de Deus, única força no universo capaz de resistir ao mais violento dos instintos.

Se pudermos levar o assunto adiante, ainda que por um segundo, e com uma licença especial da misericórdia de Deus (e da extrema compreensão do leitor cristão), poderemos raciocinar com sequencialidade lógica e entender que Jesus pode ter sentido até ereções, já que tinha saúde perfeita, tinha libido viva e foi tentado pelos desejos que militam na carne humana, a qual Ele assumiu integralmente, como nenhum de nós assumiu (lembrar aqui não de ereções lascivas pelo olhar da nudez ou coisa que o valha, mas de ereções espontâneas e provocadas, muitas vezes, pelo sono ou pela necessidade de urinar à noite). Por outro lado, como fazem os bons teólogos em sua liberdade de teologizar a Revelação, teríamos que esticar ainda mais o raciocínio, e jamais encerrar o caso sem considerar que a Tentação a Jesus era obra direta do Inimigo, e por isso tinha que ser a maior de todas para poder “socorrer” às pífias tentações que sentimos. E tinha que ser a maior de todas, tanto porque o corpo do Nazareno era dirigido “por um Deus”, quanto para calar a boca do diabo, que jamais calaria se o Filho de Yaveh sofresse qualquer coisa menor que o inferno. Logo, o corpo do Nazareno teria que ter uma ereção perfeita (100% perfeita pelos padrões da medicina e da sexualidade) e ainda sofrer um desejo louco para que Sua vitória sobre a carne fosse cabal! Qualquer coisa menor que isso é recuar da verdade, por puro medo ou preconceito. E nada do que foi dito aqui conspurca a santidade do Nazareno, por mais que o ineditismo desta ousadia tenha ferido os pudores de crentes sem a devida preparação. Sua santidade se impõe justamente porque Ele sofreu uma tentação que homem algum resistiria, vencendo-a sem possuir mulher alguma (* = Vide nota de rodapé).

jesus e maria madalenaPois bem. É aqui que entra Maria Madalena.

Jesus não poderia ter qualquer desejo sexual por mulher nenhuma. Nem mesmo por uma esposa oficial, já que Ele não veio ao mundo para casar (era um celibatário nato), e sim para cumprir uma casta e trágica Missão. Assim sendo, como Ele poderia vivenciar a experiência da Tentação sem sentir desejo por uma mulher de verdade e sem sentir uma ereção?

Pior. “A mulher da vida dEle” (fora sua Mãe) tinha um passado inconfessável e pode até ter sido uma meretriz, já que esta palavra aparece em boa parte das tradições mais antigas do Novo Testamento. Seja lá como for, prostituta ou mulher livre, ela era uma fêmea atraente e certamente lindíssima (mais uma vez isso era necessário para a Tentação ser o mais irresistível possível ao lado humano de Jesus), extremamente carinhosa, amicíssima de Jesus – certamente O amava em mais de um sentido, inclusive o da gratidão – ao ponto de Lhe fazer todos os favores e, enfim, uma mulher que trazia em seu peito todas as experiências da sensualidade, sabendo cativar pelo sexo a qualquer homem nas condições de Jesus, i.e., de alguém que salvou a vida dela (Lc 8,2).

Agora olhemos o lado de Madalena. Como uma mulher humana, com todo o instrumental divino do prazer (“Deus a fez Mulher”) e da beleza, resistiria a uma forte amizade e a uma “certa intimidade” com um homem que a salvou, e que tivesse todas as qualidades de Jesus, inclusive uma masculinidade e uma virilidade que só eram contidas pela única razão de sua força de vontade? Temos que ver que, se do lado de Jesus essas cogitações ganham certa condescendência lógica, do lado de Madalena a força desta verdade é avassaladora, como caberia às mulheres sentir e expressar.

MagdalaJesusJuntando as duas pontas, uma mulher 100% sensível e um Homem-Deus 100% imbuído de uma missão 100% inserida na realidade humana, ambos sofrendo as desventuras da Tentação que gera solidão e desespero para se fazer valer, tiveram, pelo menos uma vez na vida, a felicidade ou a infelicidade de se encontrar em situação de intimidade (não necessariamente num quarto ou numa cama) e a “excitação” de ambos pôde gerar o maior de todos os desejos, justo por ser o melhor para sentir e o pior para se resistir. No paralelo bíblico do Monte da Tentação, nos dois sentidos, a voz de satã pôde ser ouvida e dizia coisas como: “Ela é linda e está a um passo de ficar nuazinha na sua frente! Ela lhe deseja ardentemente, não apenas como homem e salvador, mas como macho e marido! Você também a deseja, tanto é que já sente até ‘estrelinhas’ no pênis! Então, se tu és o filho de Deus, o mundo inteiro te darei, se com ela te deitares!”. Foi mais ou menos assim que aconteceu, com base em Mt 4 e Lc 4. Neste caso, então, da mesma forma que Jesus morrendo de fome resistiu a transformar pedras em pães, aquela maldita ocasião equivaleu tão somente a um sofrimento indizível, e o Filho de Deus pôde assim experimentar uma das piores dores do seu coração, talvez a maior, embora num nível diferente da dor do Calvário. E foi por resistir – mais uma vez – à aproximação do diabo que Ele venceu a batalha, garantindo-nos mais que vitória em sua inabalável santidade. É isso. (Apresso-me a dizer que, embora a Bíblia tenha omitido estes detalhes, fazendo-o em razão de os tais serem desnecessários à nossa salvação, a lógica irretorquível da utilidade daquela Tentação torna o fato plausível, obrigando todos ao silêncio óbvio da ignorância, uma vez que ninguém pode negar aquilo que não foi revelado, sobretudo quando há lógica envolvida).

Graças a Deus o Nazareno suportou TUDO por nós. Como disse CS Lewis, Ele foi O único Perfeito Penitente, porque só o perfeito poderia pagar o preço da Queda de Adão. Só o perfeito poderia viver toda a Tentação e se manter firme, apesar de uma dor que só um Deus suportaria. Nem podemos imaginar o que vislumbramos de longe neste artigo, pois a própria noção da Tentação foge às dimensões da mente humana, e homem algum jamais vai saber o que Deus suportou. Ao final, importa para nós apenas saber que foi justamente a dor que Ele sentiu, se é que se pode falar dela no singular, que nos possibilitou abrir a porta do Céu, com as chaves que Ele nos deu. E lá, lá longe, lá onde a dor já foi extinta e toda lágrima foi enxugada, é que talvez venhamos a sentir todo o prazer que Ele “perdeu”, então com a alegria de saber que se trata de mais uma dádiva doada pelo Seu amor infinito, no qual Ele mesmo a estará sentindo.

_________________________________

(*) = NOTA DE RODAPÉ: Creio que este era o destino do raciocínio ao qual CS Lewis chegaria depois do que disse em alguns trechos de seus livros; ou, pelo menos, que o argumento aqui exposto só me ocorreu, com duro esforço lógico e emocional (vencendo a tentação de julgar tudo uma pesada ingratidão), após deixar-me levar pela mente solta ou tão somente dando continuidade àquilo que alguns raciocínios de Lewis ensejavam inferir.
Esta entrada foi publicada em Arte de Desaprender. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 respostas a A Dolorosa Tentação de Cristo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *