Casas mal-assombradas não são necessariamente casas antigas

Analisando a hipótese de as aparições de fantasmas terem algo a ver com a estrutura ou arquitetura dos imóveis, à luz de um texto de CS Lewis e de uma recente notícia de assombração.

Certa ocasião CS Lewis tentou explicar a aparição de fantasmas relacionada à arquitetura antiga e a cenas pesadas passadas em residências e empresas, como produtos de “magnetização” de energias ligadas às tais construções e circunstâncias, propondo que uma implosão, reconstrução ou reforma no prédio deveria por fim às aparições. Esta explicação de Lewis foi única em toda a sua obra, e não por acaso se encontra no 3o Livro da Trilogia Espacial, “Aquela Forca Medonha” (AFM), pág. 393, parágrafo 1, Livro 1. Na verdade, no 3o Livro da Trilogia, não é bem Lewis quem explica o assunto por este viés, e sim uma personagem da história, que queria se ver livre de tais “incômodos do além”, sem necessariamente recorrer a um padre ou a um “ghost-hunter” qualquer.

Na realidade, esta idéia da solução para as assombrações vir da implosão ou reforma do prédio é uma tremenda simplificação, incompreensível para uma mente como a de Lewis (acostumada e crente no complicômetro cósmico), o que imediatamente nos leva à crença de que o trecho de AFM não corresponde a uma palavra de Lewis, e sim a algo que ele ouviu de outrem. No livro todo, aliás, Lewis não passa de um ouvinte do personagem central, o sr. Mark Studdock, cujas memórias serviram de base para o enredo daquele que seria o livro mais “desaconselhável” de Jack (segundo ele mesmo), dada a crueza da exposição do Mal, nunca antes tão escancarado em toda a sua obra. Para nós lewisianos da EAT, a obra é aconselhável, e muito, para compreensão mais completa do Evento ER, fato divisor de águas na História da Salvação.

De qualquer modo, por que Mark teria entendido – de outrem – que a solução para acabar com casas mal-assombradas seria a demolição ou reforma do prédio onde se manifestam, já que sua amizade com Lewis lhe mostraria outra história? Tudo leva a crer que Mark ouviu a “solução” de algum dos pérfidos com que lidou no tempo de sua agonia no NICE (Instituto onde se tramava a dominação do mundo), pois eles se julgavam tão poderosos que nem mesmo as almas desencarnadas lhes traziam qualquer apreensão, e poderiam ser interpretadas – como tudo mais – como mera energia a atuar na “química atmosférica” de casas e prédios, que teriam a capacidade de reter (numa estranha memória – Aqui lembramos Rupert Sheldrake) e “regurgitar” todas as ocorrências dramáticas ou traumáticas em seu interior, acumuladas ao longo de sua história – ou emprestadas de fatos ainda mais antigos.

Porém Lewis sabia que havia muito mais coisas envolvidas! Sabia e até um dia viu (em “The Great Divorce”) que as almas dos desencarnados PODEM SIM reaparecer no mundo dos vivos, sobretudo em ambientes onde ocorreram fatos dramáticos ou traumáticos, ou em lugares onde, de alguma forma, suas memórias ficaram presas a “paixões ou vícios pegajosos”, como no caso de fantasmas-literatos cuja paixão por sua fama literária não os permite abandonar as livrarias ou bibliotecas onde seus livros estão expostos (este exemplo é do próprio Jack).

Isto então abre uma perspectiva muito mais ampliada para o entendimento das casas mal-assombradas, uma vez que qualquer que seja o lugar onde as tais “paixões ou vícios pegajosos” tenham se fixado na memória e na história pregressa do indivíduo, será ali mesmo onde ocorrerão manifestações fantasmagóricas, independente da arquitetura ou idade do imóvel. Tanto é verdade que recentemente, aqui mesmo no nosso país (uma terra novíssima em termos de fantasmagorias), têm aparecido exemplos vivos de assombrações manifestadas em prédios recém-inaugurados ou bem novos (veja NESTE link), o que vem provar que as epifanias fantasmagóricas são muito mais complexas do que pode supor a melhor das mentes vivas, e é esta complexidade que tratamos aqui.

Ao longo da obra de Lewis, sobretudo em livros como “Cartas a Malcolm” e “O Grande Abismo” (The Great Divorce), a sobrevida da pessoa humana é tão concreta quanto o teclado em que digitamos este artigo, ou mais concreta do que muitas coisas que guardamos em nossos armários. Na verdade, a morte não existe, e aquilo que chamamos ‘morte’ não passa de um “descascamento” da cobertura de carne que envolve nossa alma, que já existia antes de nascer na carne, num passado que não será nossa matéria aqui.

Quando a higidez de nosso corpo chega ao fim ou quando este não é mais capaz de suportar a presença de nossa alma lúcida (ela esteve lúcida apenas enquanto nosso corpo pôde dar suporte à nossa recém-formada consciência-ego), a alma humana – que muitos chamam de ‘energia’ mas, se for energia, é uma totalmente desconhecida da Ciência – se desprende e passa a habitar o ambiente próprio das consciências desencarnadas, que a Bíblia chamou de “região dos mortos”. O processo se dá assim (o leitor poderá ler muito mais de nossa Escola sobre o assunto por ESTE link 1 e depois por ESTE link 2) como no seguinte resumo:

Uma vez livre do corpo, a alma passa, a princípio, por um período de escuridão pré-consciente, do mesmo modo como ocorre com bebês recém-nascidos, durante o tempo em que ainda não abriram os olhinhos. A consciência propriamente dita, tanto no bebê quanto na alma, só chegará após um tempo (nos bebês após os 7 anos, mais ou menos) e virá ainda mergulhada em “inocências” ou com as ingenuidades típicas de quem chega a primeira vez numa cidade como forasteiro. Só depois de alguns meses ou anos o visitante se sente assim como um “cidadão” do lugar.

Após este tempo, as questões relativas ao passado começam a aparecer mais fortemente, e é aí que o indivíduo passa a ter as primeiras “pontadas” da consciência moral, que já perfazem as primeiras chamadas de Deus à responsabilidade de galgar um lugar mais elevado, para o qual a alma foi criada. É neste ponto que a alma sente a surpresa de ainda possuir liberdade total, ao ponto de poder recusar as chamadas e decidir o seu destino naquele exato instante, ou seja, manter-se ali, longe do Reino de Deus, subir ao Paraíso ou baixar pela Terra, onde de nada usufruirá, mas poderá “assustar” os vivos. E enquanto se mantiver ali, as chamadas jamais cessarão, pois Deus baterá naquele coração para sempre, ou até onde chegou a informação colhida por Lewis.

Assim, quem quer que tenha morrido, ouvirá a voz de Deus no seu interior, e esta voz o acompanhará até que alcance a “superconsciência dos sólidos”, ou seja, daqueles que já “ressuscitaram por completo*” e já ascenderam ao Paraíso (chamados popularmente de “santos”). [Falo “ressuscitar por completo*” porque todos ressuscitam, ou se solidificam, mas uns para o Bem – o Paraíso – outros para o Mal, a solidão infernal].

Os outros, ou seja, todos os que ouvem a voz mas teimam em tentar manter sua vida com características de “encarnado”, são precisamente aqueles que se manifestam nas casas mal-assombradas, tentando observar o que os vivos estão fazendo (quando não são de todo malignos) ou interferir na vida dos vivos (quando já assumiram o Mal que os engolfou). Isto é que encerra a discussão sobre a idéia de que prédios velhos é que fariam aparecer “almas penadas” ou outras fantasmagorias, pois é a liberdade de decisão das almas que as leva a procurar os lugares onde se manifestarão.

Mas é claro que casas e prédios velhos, com o maior tempo em que receberam as energias psíquicas das pessoas que neles habitaram ou trabalharam, têm maior chance de “deixar transparecer” consciências desencarnadas que lá penetram, pois o acúmulo das energias ao longo do tempo como que multiplica ou amplifica os chamados “campos mórficos” e o ambiente então passa a contar com este “subproduto” da Criação, que é aquilo que Sheldrake chamou de “memória da Natureza” (subproduto aqui não é depreciativo, pelo contrário, mostra o infinito amor de Deus cintilando em todas as coisas criadas).

Isto posto e finalmente, fica claro que QUALQUER lugar pode manifestar aparições e fantasmagorias, dependendo das almas que um dia o habitaram ou até das que o habitam agora, se estas tiverem manias psíquicas fortes ou viverem ali dramas pessoais indeléveis, os quais também atraem almas desencarnadas vazias ou que estejam à procura de si mesmas (tecnicamente falando). E mais: não adianta levar este assunto para quem for cético, pois a característica mais forte das almas incrédulas não é ter passado pela morte e descrer que continuam vivas, mas é já terem morrido e ainda acreditar que estão entre os vivos.

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A incrível precisão das descrições antigas

Com o duplo sentido proposital para “precisão”, a Antiguidade deixou um legado extraordinário para as pesquisas do homem moderno acerca de sua própria falibilidade e das realidades espirituais.

Temos observado com freqüência uma gama de descrições antigas da vida humana que parecem irreais aos olhos da pós-modernidade, sobretudo quando tais relatos exibem uma sociedade menos violenta, mais cordata, mais sincera, e onde a justiça se faz com mais pureza de propósitos, demonstrando estar calcada sobre firmes alicerces morais, herdados e aceitos por toda a população. E isso não é de admirar, pois o respeito à Moralidade vigorou até meados do Século passado, quando a Televisão chegou e desintegrou todo o concreto que sustentava o edifício social – e isto de modo irreversível, já que a inocência, uma vez perdida, torna-se irrecuperável como a confiança, que exige integridade total durante todo o tempo.

As glórias e vantagens da Antiguidade (como da Idade Média) abrangem um largo espectro de facetas da vida humana, que poderiam ser resumidas em pontos como o romantismo, o cavalheirismo, o respeito à Mulher e aos mais velhos, a valorização do Magistério, a confiança na Medicina, a honradez de juizes e magistrados, a obediência prazerosa dos filhos aos pais (legítimos ou adotivos) e dos cidadãos às autoridades (eleitas ou herdadas), a confiabilidade das relações patronais, a boa vontade de chefes e trabalhadores, etc. Isto tudo sem falar das artes e da cultura em geral, que eram verdadeiras pérolas de beleza e pureza, retratando cenas pastoris de situações corriqueiras no meio rural, as quais chegavam até às vilas aconchegantes de pequenos aglomerados humanos, que nunca eram sufocantes e impessoais. Enfim, pode-se dizer com segurança que a Antiguidade (aqui conceituada como sendo do Século XIX para trás) guarda seus insuperáveis trunfos de felicidade social, com sobejas vantagens sobre a vida moderna, a exceção dos avanços tecnológicos. Este é o ponto de partida deste arrazoado.

Com efeito, o que nos chama a atenção para escrever sobre o assunto, é quando os povos antigos vêm descrever o que eles vivenciaram, extraindo dali todo o legado de aconselhamento e orientação de conduta, oferecendo a nós uma filosofia de vida sólida e segura, que pode garantir a manutenção da sociedade até seus derradeiros dias, ou até que uma hecatombe cósmica (como a queda de um grande asteróide) extinga a vida na biosfera. É uma proposição segura porque, controlando bem a geração do mal e a impunidade subsequente, mantém a normalidade intocável em suas ruas, casas e trabalho, e os marginais – quando realmente marginais – presos em situação de espera do cumprimento de sua sentença ou da pena máxima, tudo dentro da Lei.

Neste mister, toda a vida cotidiana é passada em revista pelos conceitos firmados pela longa experiência social dos povos antigos, e um bom exemplo desta realidade diz respeito à forma como a Antiguidade via a sexualidade humana; ponto onde as diferenças com nosso tempo se tornam gritantes e, porque não dizer, vergonhosas. Por exemplo, podemos ver a forma como a Antiguidade encarava as duas classes de mulheres (ali resumidas a apenas duas), as decentes e as promíscuas, batizadas com os nomes de “damas” e “meretrizes”, cada uma ocupando seu papel social bem definido e bem aceito, desde quando uma não invadia o campo da outra e vice-versa (aliás, quando uma meretriz vinha para o “meio social decente”, debaixo de muito sofrimento e rejeição preconceituosa, demorava muito até conseguir respeito, e isso apenas quando comprovava uma mudança drástica de vida, quase sempre testemunhada por padres e autoridades em geral – a autoridade religiosa era a maior –, ganhando enfim certo status de “forasteira”, só superado quando se casava bem ou quando seu marido era um figurão rico e respeitado por todos).

Os povos antigos então, por força da Moral forte e honesta, tinham suas categorias de classes sociais bem demarcadas em seu meio, cujos limites configuravam-se drásticos nos lugares públicos, sem que ninguém sentisse náusea por qualquer “exclusão”, preconceito, rotulagem injusta, ou coisa que o valha. Ali era consenso, por exemplo, que as meretrizes – ou “mulheres profanas” – gozavam de certa liberdade para fazer shows seminuas ou desnudas, desde que escondidas em quatro paredes de bordéis (muitos deles “chiques” – os pobres eram tão ‘recolhidos’ à sua insignificância social que não faziam diferença na sociedade) e só visitadas por figurões ricos e/ou políticos, os quais nem se contaminavam moralmente com elas nem eram acusados de traição; porquanto ir a um ‘cabaré’, na época, era uma prática oficial e até legal, aceita inclusive pelas esposas, que muitas vezes eram levadas também a assistir aos shows. Ali as “damas” viam belos espetáculos dramatizados, onde as personagens podiam ser “esquecidas como meretrizes”, ganhando temporariamente o status de “profissionais da arte”.

Dessa prática comum foi que surgiu e se consolidou a noção de que SOMENTE mulheres profanas (ou “livres”) ousavam se tornar “artistas”, principalmente quando se tratava de artes cênicas ou teatrais, tornando o termo “artista” um sinônimo de “profano”, ‘mundano’ ou “imundo”. Daí que associar a profissão das “meretrizes” (a palavra meretriz é uma forma sincopada da expressão “mera atriz”) à arte das atrizes foi um curto passo, e ninguém existia que rejeitasse essa idéia, encontrando até atrizes que registraram em livros a alcunha com a qual se viam. Isto fecha a questão em relação à ótica do Bem na Antiguidade. Agora vamos à ótica do Mal.

Mesmo que o Homem moderno queira entender que a concepção antiga do Bem carece de elementos realistas em comparação com a compreensão que a humanidade alcançou com a chegada da Era Tecnológica; ou que as descrições antigas do que seja o Bem sejam consideradas uma aberração pelo “grau de liberdade” que a sociedade alcançou, o mesmo não se pode dizer das descrições do Mal; pelo contrário, que a Pós-modernidade vai ao passado buscar os detalhamentos mais ilustrativos da ciência da maldade, pela experiência mais incisiva sobre a manipulação do Mal praticado antes que a consciência tivesse sido despertada pelas injustiças sociais.

Noutras palavras, a liberdade até então oculta da sociedade permitiu aos manipuladores do Mal descer aos porões onde a maldade era gerada, fazendo pacto com sua geratriz em troca de poderes que só beneficiavam os maus, conquanto fizesse lucrar a quem os concedia aos “seus agentes”. Neste sentido, nunca jamais a Humanidade foi tão má quanto na Antiguidade, embora tal parâmetro só se possa afirmar em comparação com maldades localizadas, e em relação aos malefícios produzidos pelas Artes da Maldade, que só os “pactuados-das-trevas” operavam [os pactuados-das-trevas atuais ainda não nasceram ou estão tão ocultos pelo seu pouco espaço popular que aguardam o dia em que Logres & Avalon retornem para nunca mais sumir!]. De fato, a maior maldade de hoje se deve ao seu caráter globalizado, manifestado em explosões de violência em praça pública, “guerras-fratricidas-não-declaradas”, atos terroristas, desastres nucleares e outros perigos, que surgem como pandemias nos 4 cantos do globo, e sem que nenhuma justiça finalmente se cumpra ali.

Todavia há um detalhe das descrições antigas da maldade que não apenas registra com precisão o teor do Mal, como empresta a ele uma atmosfera jamais repetida pelo homem moderno, exceto no quesito das perversões sexuais, as quais tudo indica que sejam o estopim das maldades trevosas que estão para surgir no decorrer do 3o Milênio. Refiro-me aos sinais da geratriz do Mal que transparecem nas fisionomias dos homens maus, cujos sintomas geralmente só são percebidos por quem está 100% fora das intenções deles, ou por quem já conhece a Maldade Antiga, aquela dos pactuados-das-trevas.

Vou tentar agora descrever o sintoma mais perceptível dessa “Maldade-Pactuada”, o qual faz transparecer esta realidade com uma expressão imperiosa, que transparece sem dó nem disfarce nos olhos e fisionomias daqueles que aceitaram o pacto, em nome de um prazer “celestial” (infernal) ou de poderes globais que possibilitem os mesmos prazeres por outras vias. [Um parêntese: se ao final toda a intenção é angariar o prazer, então é evidente que o verdadeiro Mal se encontra noutra esfera de atuação, numa dimensão onde o prazer é precisamente vampirizar essas almas humanas que busquem desesperadamente o gozo suposto como celestial, as quais usam para isso quaisquer pretextos, ou seja, que os fins justificam os meios].

Assim, quando observamos com atenção, nos quadros e pinturas antigas, as fisionomias dos homens e mulheres em estado de maldade, perversão ou degeneração, fica evidente que aquelas pessoas se entregaram de corpo e alma à geratriz do Mal, e esta pactuação lhes emprestou um rosto sádico, sórdido, lúgubre e libidinoso, com o qual caminham até a culminância de sua maldade, sem que nada lhes impeça de chegar a um homicídio ou suicídio. E é aqui que a descrição antiga mostra seu perfeccionismo inconteste, porquanto o que a pós-modernidade tem exibido, às vezes em horário nobre (ou diante de nós, nas ruas, guetos e praças), são fisionomias dilaceradas pela sordidez, pela lascívia ou pela crueldade, com sinais de “orgulho” pela postura assumida! – Este, enfim, é o grande diferencial da modernidade: os antigos homens maus se entregavam aos pactos na tristeza de um suicídio desesperado, e muitos sofriam por se aplicar tais destinos! Hoje em dia não: a maioria se entrega pelo exibicionismo, e muitos nem se dão conta do que lhes espera na sétima noite ou na sétima década, quando a velhice lhes provar ter sido toda a sua vida um sacrifício inútil em prol do vazio.

Exemplos? Basta dar uma passada no Google e procurar pesquisar frases como: “sites e blogs góticos”, “sites e blogs de mulheres das trevas”, “roqueiros das trevas”, “metaleiros tresloucados”, “blogs de vampiros e vampiras”, “bruxas modernas”, “sites de bruxarias e feitiços”, “tatuadores góticos”, “talhadores da carne”, “tatuados da noite”, “marcados pelas trevas”, “góticos à moda antiga”, etc. E há muito mais coisas, sem muito esforço. Veja, por exemplo, as fotos das capas de CDs de “roqueiros envenenados”, “metaleiros engajados” e outros grupos, como mostram fisionomias de pessoas que já nem parecem humanas, e apenas refletem almas afiveladas em rostos pétreos e sem vida, exibindo dentes enferrujados, piercings, mini-punhais encravados na pele, ganchos e pinos nas orelhas, e tudo como se estivessem se vingando de seus corpos ou oferecendo hospedagem à dor, como companheira inevitável de uma vida sem sentido! [Dadas as dificuldades de se descrever as emoções transmitidas na fisionomia daquelas almas, acredito que minhas palavras não perfazem qualquer exatidão no registro de tais criaturas, ou que pelo menos elas perdem feio para as descrições dos antigos].

É claro que a pesquisa esbarra numa aparência de maldade, e não na essência, uma vez que esta ainda não foi de todo adentrada! A Humanidade, afinal, ainda dá muito valor ao prazer físico para tentar a busca de um gozo superior na maldade pura e simples! E graças a Deus ainda temos algum tempo, enquanto podemos respirar “sem a fumaça das 7 luas”…

Todavia isso não vai demorar muito. Toda a mídia mundial trabalha para permitir a emersão da Geratriz do Mal em carne e osso, e quando ela chegar será mais aplaudida do que uma Cicciolina em sua época de ouro do cinema pornô. E não será necessariamente “uma mulher”, já que terá que servir a dois senhores ou mais, incluindo homens que gostam de homens e mulheres e vice-versa. E também não será libidinosa, somente, pois carrega o desejo oculto de dominar o mundo todo… E isso não leva ao sexo, e sim, à vampirização, prazer que ela jamais mostrará a ninguém para não perder IBOPE.

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Diferença entre Espiritualidade e Religião

Sendo um assunto já muito freqüente nos livros e na Internet (veja links sugeridos aqui), uma outra revisão do mesmo pode apontar novos ângulos pelos quais iluminar melhor este tema tão importante e decisivo.

Não será preciso uma pesquisa muito cansativa para descobrir que, atualmente, muita gente está preocupada com a demorada e perigosa confusão entre religião e espiritualidade, e por isso a Escola de Aprofundamento Teológico (EAT) está vindo a público para ajudar neste mister, esperando contar com a leitura atenta dos 25 pontos seguintes, bem como com a internalização deste conhecimento tão útil aos seus leitores. A EAT aproveita o ensejo para lembrar também da excelente indicação do imortal pastor Burton Dewolf Davis (saudosa memória), o qual encontrou no livro “Como ser cristão sem ser religioso” uma das melhores orientações sobre o assunto.

Antes, porém, de elencá-los, nossa pesquisa julga oportuno e até necessário uma visão mais abrangente do tema, e por isso fornece outras listas para comparação, as quais podem ser encontradas nos seguintes links:

http://www.deldebbio.com.br/index.php/2011/06/14/diferenca-entre-religiao-e-espiritualidade/

http://www.paracleto.net/artigos/2011.03.12.php

Por último, bastará que o leitor digite, na barra de pesquisa do Google, a seguinte frase: “Diferenças entre Religião e Espiritualidade”, para encontrar um mundo de sugestões, o qual deixará o leitor com a faca e o queijo na mão para decidir e formar sua opinião. Inobstante, apenas chamamos a atenção do leitor para o fato de boa parte das listas sugeridas terem sempre a mesma inspiração (provavelmente oriunda de “religiões espíritas”), e não será difícil encontrar listas idênticas, frases repetidas e idéias manjadas, devido, como cremos, à exaustão com que o assunto já foi discutido. Finalmente, a lista abaixo é de origem cristã. Vamos a ela:

Diferenças entre Religião e Espiritualidade

  1. A espiritualidade é quase sempre diferente do que a maioria pensa, devido às muitas interpretações que as religiões fazem dela. A religião é quase sempre igual ao que todo mundo pensa, não apenas devido à maior divulgação desta última, como à tendência das religiões de escolher um único modo de viver a espiritualidade.
  2. A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer, ou que precisam ser guiados. A espiritualidade é para os que prestam atenção à voz do seu Senhor e O seguem.
  3. A religião tem um conjunto de regras dogmáticas e as quer impor. A espiritualidade o convida racionalmente a raciocinar sobre tudo e a descobrir que os dogmas são a única possibilidade de consertar o problemático coração humano e fazê-lo voltar a cumprir a vontade de Deus.
  4. A religião o ameaça e o amedronta, em seu estado “bruto”. A espiritualidade lhe transforma ao ponto de dar-lhe um estado interior elevado, capaz de entender o recurso didático do medo.
  5. A religião fala em pecado e culpa. A espiritualidade lhe diz: “aprenda com seus erros para não cometê-los de novo, porque neste mundo de tentação tudo é aprendizado”…
  6. A religião descreve e aponta. A espiritualidade imagina e descobre.
  7. A religião não indaga nem questiona, dada a humildade do praticante. A espiritualidade questiona tudo, enquanto o praticante não alcançou a humildade.
  8. A religião lhe procura para que você venha a morar no lar dos bem-aventurados que nela acreditam. A espiritualidade, você tem que procurá-la para que um dia, mais adiante, você possa acreditar nela e então ter na religião o seu lar.
  9. A religião segue preceitos de um código de conduta que organiza os seus seguidores, como única fórmula de se manter um grupo unido aos ideais de seu fundador. O código geralmente é extraído de um único livro sagrado. A espiritualidade busca a voz e a vontade de Deus encontrada em todos os livros, após a devida maturidade para identificá-la.
  10. A religião é humana, e por isso é uma organização que precisa de muitas regras. A espiritualidade é Divina, e só precisa de uma única regra: se adequar à vontade de Deus.
  11. A religião é causa de divisões, porque cada liderança religiosa julga estar fazendo o que é certo, e as outras o errado. A espiritualidade é causa de União, porque todos os seus membros buscam fazer apenas a vontade do líder maior, Deus.
  12. A religião reprime tudo, porque vê o perigo da falsidade e da maldade, e tem cuidado com os seus. A espiritualidade transcende tudo, porque já ultrapassou a imaturidade humana e já está sob cuidado de uma consciência orientada por Deus.
  13. A religião não é Deus, mas tem a utilidade de apontá-lo à descrença humana. A espiritualidade é divina e por isso serve àqueles que já descobriram Deus e podem espiritualizar sua religião.
  14. A religião vê profunda utilidade no medo, como recurso para apontar o perigo. A espiritualidade vê profunda utilidade na Fé que vence o medo, dando confiança para ultrapassar bem os perigos.
  15. A religião restaura o pensamento. A espiritualidade restaura a consciência.
  16. A religião sonha com a glória e com o paraíso, e com eles nos faz sonhar. A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora, e com eles nos faz úteis ao próximo.
  17. A religião vive no passado e no futuro. A espiritualidade vive no presente.
  18. A religião se ocupa com fazer. A espiritualidade se ocupa com Ser.
  19. A religião pode alimentar o ego, quando ela também sofre de egolatria. A espiritualidade nos faz diminuir e até anular o ego, quando bem orientada por um encontro verdadeiro com Deus.
  20. A religião nos faz renunciar ao mundo. A espiritualidade nos faz viver para Deus, usando os recursos do mundo para ajudar outras pessoas a encontrá-LO.
  21. A religião é culto e devoção. A espiritualidade é oração e adoração.
  22. A religião restaura e direciona nossa memória. A espiritualidade restaura e direciona nossa imaginação.
  23. A religião crê e prepara para a vida eterna. A espiritualidade nos faz consciente e a serviço da vida eterna.
  24. A religião promete para depois da morte. A espiritualidade encontra Deus durante a vida e antecipa a promessa em nosso interior.
  25. A religião pode abrigar todos os males da tirania humana e do cerceamento da liberdade. A espiritualidade pode converter tiranos e devolver a liberdade para ele e seus seguidores.

Finalmente, o StudioJVS também divulgou um vídeo sobre o assunto, com todos os 25 itens publicados com fotos e GIFs, o qual pode ser acessado clicando NESTE link. Desejamos que os nossos alunos e amigos façam bom proveito da informação e agora, conscientes das colossais diferenças entre religião e espiritualidade, possam explicar melhor o tema a quantos lhes venham “pedir a razão da esperança que há em vós”…

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Porque não cremos na viagem no tempo (Resumo a pedidos)

Mais uma vez alguém pediu à nossa Escola para explicar, em poucas palavras, porque não admitimos a chamada “viagem no tempo linear”. Então, após algumas horas do e-mail chegado e diversas pesquisas (recomendamos principalmente esta aqui) na WEB, respondemos o seguinte:

Prezado Correspondente:

Acho que temos amizade suficiente para dar nossa opinião completa, mas isto tomaria muito tempo e espaço nosso, afora o tempo do amigo. Todavia, contando com os textos que já divulgamos sobre o assunto, julgamos melhor resumir tudo com os seguintes pontos. Veja:

(Primeiro) – Nos parece a explicação mais simples, em comparação com outras que se escondem por aí, fundindo a cabeça dos cientistas, e por isso não é à-toa que eles se omitem ou desmentem tudo. Bem; por ser simples, ou por chegar facilmente à nossa razão, acabamos nos acostumando a rejeitar explicações simplistas, porque todas as vezes que fazemos qualquer pesquisa com esmero, o universo sempre se mostra complicadíssimo para os nossos olhos, mesmo quando usamos telescópios potentes ou instrumentos de última geração. E a explicação é que as viagens no tempo são fáceis de pensar porque no fundo todos desejamos voltar no tempo e refazer nossas vidas, extraindo dela os erros que todos sabemos que cometemos e não gostamos de confessar. Logo, por um desejo recôndito e pungente de nossa alma, nossa razão tende a relativizar as intransponíveis barreiras de uma viagem dessas, tal como sonhos de crianças pobres retiram as barreiras de dinheiro quando elas sonham com viagens à Disneylândia!

(Segundo) – Assim, por mais que você não haja pensado nesta hipótese, o principal motivo para a inexistência de viagens no tempo é de ordem moral, e não técnica. Ou seja: se você crê em Deus, ou para aqueles que creem, fica evidente que um Deus que tivesse o mínimo interesse (e Ele tem todo) em consertar as coisas, fora e dentro de nós, não iria permitir qualquer brecha para um mau caráter sonhar com  a hipótese de ter os seus erros jogados para debaixo do tapete, voltando ao passado e desfazendo as suas maracutaias e outros crimes. Assim, toda vez que você pensar em viagens no tempo, lembre-se da viagem de um homem mau, de um Adolf Hitler, a Rainha Jadis (lembra?) ou coisa pior…

(Terceiro) – Nenhuma viagem no tempo é APENAS viagem! Ela é também uma CRIAÇÃO. Ou seja: desde que a linha do tempo é evadida por um elemento intrínseco dela, o próximo segmento de tempo CRIA uma nova realidade, não apenas “protegendo” a primeira linha (inviolável e intransferível), mas ACRESCENTANDO a Nova História que se CRIOU, como inaugurando uma outra linha, que pode ou não ter as mesmas personagens, mas em destinos completamente diferentes e irreconhecíveis. O melhor exemplo é o filme número 2 da Trilogia “De volta para o futuro”, onde o jovem MacFly retorna do passado para o futuro e encontra sua mãe irreconhecível, vivendo uma vida completamente diferente da que ele deixou naquele passado de onde ele saiu, e pior, sem ela sequer saber quem é o estranho visitante que ela nunca viu antes. A EAT já escreveu alguma coisa sobre isso quando falou sobre o final do seriado LOST (o leitor pode conferir isto neste link).

Bem, prezado amigo. Como dissemos, isto é apenas um resumo… e resumos sempre tornam as coisas simples mais simplórias ainda! E pior: como um paradoxo ambulante, quase todas as idéias simples necessitam de respostas complicadas para serem visualizadas, com nossas lentes nem sempre muito polidas. Eis porque recomendamos pesquisas mais profundas ao lado de bons cientistas, ou em livros como os de CS Lewis (“Mere Christianity”; “Milagres”, “Crônicas de Nárnia”, etc.), que o amigo deveria investigar como se fossem de Ciência, e não de “religião”. É isso.

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Está em risco de morte o direito de expressão?

A reação incongruente e hostil de quem recebe uma crítica honesta pode se voltar contra o reacionário e até anular a suposta justiça que ele diz defender.

Chegamos ao fundo do poço. Uma Era que se orgulha dos benefícios da Tecnologia e se gaba dos direitos alcançados, está agora diante de um tema constante na mídia, contra o qual NADA se pode opinar, numa proibição expressa diretamente contra o livre-pensar, defendido por todas as democracias do mundo. Trata-se do direito de opinar acerca do homossexualismo, como se a mera opinião fosse um crime. Onde estamos afinal?… Ora, foi preciso um papa falar para que uma voz livre pudesse ser ouvida? (sobretudo nestas plagas tupiniquins, onde a ignorância de alia ao desejo lascivo da anarquia e contamina todos os meios de comunicação, que só querem audiência e lucro), ninguém mais pode abrir a boca?…

Contudo, o Papa “deu uma dentro”, enchendo de “orgulho santo” os católicos romanos, já bem distinguidos quando comparados a outros ramos do Cristianismo, que têm se calado vergonhosamente diante da gritaria GLBT. Para falar o que falou, o Santo Padre deve estar mesmo preocupadíssimo com a situação mundial, até porque encontra o homossexualismo mais vil DENTRO de sua própria Igreja, em homens que deveriam dar exemplo de santidade e estão estuprando crianças e difamando o bom nome do Evangelho.

Mas a palavra do Papa subiu ao Céu! Chegou lá onde a voz de um apóstolo deve ir, e conclama os católicos do mundo a abraçar sua indignação, assumindo uma postura católica autêntica, conforme as tradições cristãs milenares. O Papa foi curto e grosso e fez um dos mais perfeitos pronunciamentos de seu papado, afirmando que o homossexualismo é uma ameaça à Humanidade, como tem sido ameaça para a própria Santa Sé. O Pontífice, afinal, tomou o seu lugar no Colégio Apostólico e cumpriu a velha sentença medieval: “Diga-se a verdade na terra, embora desabe o céu!”… [Aqui pedimos ao leitor para conhecer bem o que o Santo Padre disse para evitar juízos precipitados e infundados: sugerimos ESTE link].

A nós da EAT, portanto, cabe opinar, no sagrado direito de expressão, sempre evocado pelos homossexuais quando querem impor suas idéias. E quem sabe usar desse direito não tem compromisso com posição nenhuma, a não ser com a Verdade, e sem sectarismos. Por isso afirmamos que, quando o Papa disse que “o casamento gay é uma ameaça à Humanidade” (sic), conquanto acertasse no mal apontado, errou por atribuir peso menor ao problema mais grave e peso maior ao seu efeito irrisório. Senão vejamos: A ameaça do casamento gay não é a da extinção da espécie humana pela impossibilidade de gays gerarem vidas (talvez o Papa, já apavorado com a pedofilia interna, tenha pensado na hipótese louca de todo mundo aderir ao homossexualismo!). Na verdade é o esvaziamento da espiritualidade, ensejado pela queda moral, aquilo que deveria preocupar seriamente o Pontífice, a Igreja e as autoridades de um modo geral, se todos tivessem o cuidado de salvar o mundo. Com efeito, o homossexualismo pode ser atestado como uma “imoralidade desastrosa”, e esta sim, perigosa, por extirpar A ESPIRITUALIDADE cristã das almas que o praticam ou incentivam, e não por uma diminuição das taxas de natalidade – as quais estão precisando, na verdade, é de um freio drástico pelos perigos da explosão demográfica”…

Por outro lado, mesmo que o Papa tivesse apontado, com o horror que merece, a questão da Queda Moral, a justiça cristã mandaria sempre não esquecer de citar o grande culpado pela Queda, que atenua bastante a culpa dos homossexuais. Ou seja, o Papa teria que ter batido muito mais forte contra a mídia de mau caráter, a saber, aquela que, pelo único interesse nos lucros da audiência, “vende até a própria mãe ao diabo” e quer ver o circo pegar fogo, nem que no meio do picadeiro estejam sendo assados os seus próprios filhos! Noutras palavras, o Papa pode fazer um bem muito maior se pregar baixando a lenha na mídia erotizante do mundo, a qual contribuiu decisivamente para depravar as consciências e tirar do armário pecados que a Cristandade levou milênios para neutralizar, com pesadas baixas e insucessos. Entretanto e com acerto, é bem provável que toda a coragem do Papa se desfaça quando se trata de bater de frente contra a mídia (o que, convenhamos, é uma vergonha e uma condenação!), o que deveria unir todos os católicos em coro por uma cobrança direta à Santa Sé.

É claro que a mídia também só obteve esse sucesso todo na depravação do mundo porque o mundo já estava depravado até os dentes, e o desejo homossexual já era tão latente nas almas de muitos “filhos de Adão”, que a sodomia atual nada mais é que um apelo barato dos meios de comunicação aos instintos mais antigos da Humanidade, como último recurso para despertar a atenção e ganhar audiência, garantindo sobrevivência dos profissionais da mídia num mundo extremamente competitivo e injusto. Portanto, usar o homossexualismo e até impor a sua aceitação forçada foi um pretexto comercial inteligente, mas maquiavélico, para conseguir ganhar a atenção de todo mundo, acertando na mosca da depravação como isca perfeita para uma sociedade viciada em sexo. Isto responde bem, e explica porque a Igreja tem sido omissa nos seus discursos antimídia. I.e, talvez a própria Igreja se beneficie da depravação geral, pois uma sociedade imoral pode render muito mais adesões de almas desesperadas e finalmente algum outro benefício à Santa Sé ($?)…

Isto é tudo, sem dúvida, já que até o Papa, quando toma coragem e fala, está sendo omisso e protecionista, como subproduto de uma geração perversa e corrupta como a que Jesus descreveu no seu discurso profético. Assim voltamos ao ponto zero e reiteramos que, se o movimento GLBT mundial tiver a sensatez e a maturidade de não lutar contra o direito de expressão, e aceitar de bom grado encontrar discursos contrários, então não haverá tanto mal no movimento, e ele pode contar até com a ajuda de religiosos, se é que estes podem ver, em sua própria omissão, a origem de grande parte dos pecados hoje aplaudidos.

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“Tudo faço por amor do Evangelho”

Existem muitas hipérboles ao longo da Bíblia Sagrada. Mas particularmente esta, decretada pelo apóstolo Paulo, parece ser uma estranha e inquietante exceção.

Os militares sabem muito bem disso. Sempre foram treinados com este sentimento, a saber: que numa ameaça de genocídio, tudo é válido para eliminar o ameaçador (aquele que pretende matar milhões); assim como, numa ameaça de extermínio total, tudo é válido para salvar o último casal, ou, em última hipótese, salvar um só, que possa salvaguardar o DNA humano e preservar a Humanidade num outro planeta ou numa terra sem a ameaça. Estas são as considerações de emergência intrínsecas e formais no pensamento apocalíptico militar, e nenhuma “mente sana” se voltará contra ele, sobretudo se habitar um corpo fardado. Tudo isto está na consciência do mais alto escalão e faz parte do “esprit de corps” das forças armadas de todos os países, sobretudo das superpotências nucleares.

O que teria isso a ver com o Evangelho?

O Evangelho também traz a sua lista de instruções apocalípticas, ou que devem ser usadas em ocasiões de emergência, sendo o fim do mundo a principal delas. Lendo as regras a vigorar na Grande Tribulação, tem-se a nítida certeza de que as coisas mudariam bastante naquele período, e tudo leva a crer que o Julgamento de Deus (a julgar apenas por aquela ocasião) não levará em conta tudo o que levaria noutra época, ou não condenaria nem salvaria alguém pelos critérios utilizados antes da instauração do caos final. Pior, para este que vos fala, pois é extremamente problemático tocar neste assunto, porque NADA que estejamos fazendo agora pode ser, nem de longe, comparado ao que estará ocorrendo na época do caos que antecederá a parusia. Assim, todo e qualquer pensamento que chegue acerca do que está sendo tratado aqui, será, necessariamente, impreciso ou simplesmente equivocado. Mas vou em frente. Há tanta coisa pior no porvir que um mal-entendido agora nada significará.

O exemplo discutido neste artigo será o da hipérbole paulina que diz: “TUDO FAÇO por amor ao Evangelho” (I Co 9,23). Tudo leva a crer que a expressão se vincula ao contexto não-apocalíptico de todos os tempos, sobretudo ao tempo apostólico, no qual Paulo redigiu suas cartas (não considerar aqui que os apóstolos acreditavam na volta imediata de Jesus já naquela época). Assim, ao escrever aos crentes de Corinto “TUDO FAÇO por amor ao Evangelho”, estava na verdade usando uma hipérbole temerária, pois o apóstolo provavelmente sabia em que riscos uma declaração daquela implicava, sobretudo numa era de “multidões sem pastor”, e sem as leis hipócritas de uma sociedade subserviente como a nossa.

Porquanto Paulo sabia que “tudo posso” jamais poderia significar TUDO mesmo, porque isto iria destruir toda a boa fama que o Evangelho precisava ter para conquistar o revanchismo judeu e a barbárie dos povos gentios, acostumados a agir sem a menor consciência moral. “Tudo posso” na boca de Paulo era tão somente uma expressão martirial, relacionada aos mais ingentes sacrifícios feitos em nome da verdade da Ressurreição de Cristo, e jamais algo que abrangesse pecados e muito menos crimes que viessem a manchar a boa fama dos seguidores de Jesus.

Inobstante, o tempo passou. Passará o céu e a terra mas a Palavra de Deus permanecerá para sempre. E o tempo, além de trazer a mensagem de Cristo para dentro da realidade, trouxe também a realidade para dentro da mensagem, e assim esta encontraria inexoravelmente os critérios de exceção que os cristãos utilizariam para cumprimento total de sua missão. A principal exceção é a Grande Tribulação, em cujo interior vigorariam as regras da guerra, a saber, não há regras. Todo mundo sabe que quando há uma ameaça maior à Constituição, ela própria abre exceções para protegê-la, sob pena de não restar mais nem ela própria nem povo algum para obedecê-la.

Como numa guerra se sabe que a primeira vítima é a verdade, é também na guerra que certos requisitos legais cedem lugar à Lei Moral maior, ou de uma Moralidade superior, em nome da qual vigoram leis que se impõem para salvar a Verdade que a guerra tenta destruir. Noutras palavras, se em tempo de paz ninguém pode matar ninguém sem ser condenado à pena máxima, numa guerra onde as próprias leis estão sob ameaça a Constituição permite atos (aparentemente) “ilegais” para salvaguardá-la. É por isso que matar alguém numa guerra não é considerado crime, sobretudo se o morto for um soldado inimigo ou um desertor-traidor, que muitas vezes faz mais mal do que um simples inimigo.

Isto também vale para a última guerra, chamada “apocalipse”, ou Armagedom. E ela é uma guerra essencialmente travada por causa dos cristãos e para a sua exterminação total, como plano secreto de um inimigo que nem precisa aparecer. Eis a síntese perfeita do fim do mundo.

Sendo assim, tendo início uma era de exceção mundial, que visa a exceção de eliminar cristãos, e sobretudo após tal determinação se transformar em perseguição declarada e em guerra urbana, o que poderiam os cristãos fazer para se auto-preservarem e protegerem seus familiares? (Nota: aqui digo “familiares não-traidores”); o que os cristãos não poderão fazer? É aqui que entra a salvadora frase de Paulo: “TUDO FAÇO por amor ao Evangelho”. E nem precisamos ficar só em Paulo. Jesus mesmo disse coisas terríveis, como: “os inimigos do homem serão os de sua própria casa”; “sereis entregues até por vossos pais e filhos”; “filhos mandarão matar pais e vice-versa”. Isto é guerra total: é preciso dizer mais alguma coisa?

Portanto, somos forçados a reconhecer que a lista completa daquilo que se pode fazer dentro do sentido da frase paulina equivale a todo o conjunto de exceções da Constituição para tempos de guerra, e nenhum cristão deveria, a rigor, se espantar com tal coisa. Aliás, o espanto só tem uma causa: os crentes de hoje jamais se prepararam para viver a Grande Tribulação e foram ensinados pela mídia a descrer da Volta de Jesus, com culpa direta das igrejas que jamais lhes instruíram neste mister.

Nada obstante, a lista de atos tornados possíveis pelo período de exceção da Grande Tribulação não pode deixar de incluir coisas como “pecar pelo Evangelho”, “roubar pelo Evangelho”, “morrer pelo Evangelho”, “matar pelo Evangelho”… A maioria atos abomináveis em quaisquer circunstâncias, a exceção de uma guerra pela sobrevivência (talvez tais atos poderiam estar incluídos na declaração do Nazareno que dizia “os filhos das trevas são mais hábeis que os filhos da luz”). É claro que tudo isso, no detalhe, teria que cumprir estrita razão de ser, a saber, a última hipótese para salvar a si ou a outrem, como acontece na guerra comum ou em legítima defesa.

O que seria pois, “um pecar qualquer pelo Evangelho”, que comportasse a exceção de ser um ato aceitável por Deus? Seria agir de tal modo que nenhum pecado estaria contemplado no ato, no sentido de não ser algo praticado com a concupiscência e a condescendência do mal, que o torna, afinal, o mal que ele é. Seria uma coisa tal como o contar sem contar, ou o pecar sem pecar. E como é pecar sem pecar?

Ora; todo pecado é, além de um ato físico visível na nossa terceira dimensão, uma colaboração consciente do espírito a um desejo incontrolável da alma (ou do coração), que arrasta o indivíduo a executar um serviço que fará inevitavelmente mal a si e ao próximo, inexoravelmente. É preciso, pois, uma conjugação de “acordos” internos para que o ato mal seja praticado, embora aja tais acordos para atos bons e haja atos maus que não precisaram de tríplices acordos entre corpo, mente e espírito. Aquele, pois, que é classificado como pecado, seria a estrita obra de crueldade premeditada na alma, auxiliada ou tolerada pelo espírito e praticada pelo corpo. Só assim é um pecado.

Eis que, se usarmos o estrito conceito técnico de pecado (esse descrito acima), certamente JAMAIS um cristão praticará pecado algum, no sentido estrito e teológico, podendo ser chamado de pecado tão somente pela ignorância popular e pela maledicência dos maus espíritos. Mas vamos aos exemplos práticos.

Imaginemos que começou a Grande Tribulação – período que antecede a Guerra Final em mais ou menos 7 anos – e a morte de todos os bons cristãos do mundo passou a ser algo legal e popular, e também o alvo direto de todas as ações de governo. É um período em que até mesmo outros cristãos, engajados em igrejas (estas ali protegidas pelo Estado), entregarão ou dedurarão os cristãos mais fiéis às forças policiais, e estes não estarão seguros nem nas igrejas e nem nas suas próprias casas! (Ler agora textos como João 16,2 e Mt 10,21-22 e 36 fará um bem enorme ao argumento). Entender a atitude dos maus cristãos contra outros crentes será fácil se pensarmos que eles estarão com suas mentes ‘convencidas’ de que os outros cristãos são “lobos em pele de ovelha” ou coisa pior, como hoje já se ouvem cristãos dizerem abertamente que padres pedófilos devem ir para a cadeira elétrica e pastores corruptos devem ir pra cadeia! Na Grande Tribulação aqueles crentes não necessariamente terão praticado algum crime, mas o fato de terem estado com pedófilos ou outros bandidos (sem saber) levou os demais a enquadrá-los como “farinha do mesmo saco” e julgá-los como igualmente indignos. Isto é apenas um vislumbre do que estará ocorrendo ali, pois até o ato de culto e a própria consciência dos crentes estará “auto-satisfeita” com a delação dos crentes que aparentemente traíram a sã doutrina, e as ações da militância cristã contra crentes aparentemente infiéis será a bola da vez na cabeça de todos, que então estarão felizes por “passar a igreja a limpo”.

Mas qual seria um ato praticado pelo crente fiel que configuraria um pecado perdoável em tempos de guerra? Seria algo como roubar (por exemplo, roubar uma Bíblia, livro raro na época); seria algo como desviar uma verba maligna para uma família cristã desprotegida (um dinheiro que estava sendo direcionado para programas de perseguição a crentes); seria algo como “eliminar” alguém que foi incumbido de entregar crentes, e com isso diminuir o quorum dos últimos seguidores de Cristo (Lc 12,58 e 19,27); etc. – Muito cuidado com os dedos-duros, pois ninguém sabe onde eles estarão!…

Isto posto, conclui-se que aquilo que o mundo chama de PECADO poderia sim aparecer no currículo de um bom cristão na época da Grande Tribulação, até porque toda a cristandade estará cometendo o pecado de delatar crentes e entregá-los aos tribunais iníquos. Naquele terrível clima de “salve-se quem puder” e de “maldito o homem que confiar no homem”, nenhuma lei estará mais em vigor, pela ótica do próprio Deus, e por isso as Escrituras Sagradas já nos deixaram o aviso e o escape (I co 10,13) daquela situação, dizendo: “onde não há lei também não há transgressão” (Rm 4,15). Só nos resta orar para que aquela maldita época ainda esteja bem longe de nós…

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Como compreender a salvação pela Carta aos Romanos?

Num duro raciocínio invertido, o apóstolo Paulo destila uma teologia problemática para explicar a doutrina da salvação, e deixa em evidência uma discussão que nem deveria existir entre cristãos

O apóstolo São Paulo é sem dúvida o maior nome entre os pregadores cristãos e a Teologia cristã perderia toda a sua força se fossem amputadas, da Palavra de Deus, as suas oportuníssimas contribuições. Todo o nosso pensamento ocidental, e além, toda a compreensão humana da divindade ficariam seriamente prejudicados sem a orientação da mente de Paulo, e o apóstolo dos gentios é respeitado até entre não-cristãos. Não há como desenvolver qualquer raciocínio teológico sem utilizar os argumentos daquele ex-legalista judeu, e toda a Bíblia poderia ser uma grande perda de tempo sem a hermenêutica paulina da Revelação.

Isto é dito para que o leitor possa memorizar o quanto este autor aprecia a teologia de São Paulo e o quanto se considera dele seguidor, já que CS Lewis, de quem sou fã incondicional, teve no apóstolo o seu grande mestre, em termos das Escrituras Sagradas. Com efeito, quem for fã ou leitor de Lewis não poderá negar que, salvo melhor juízo, mais de 90% do pensamento lewisiano está baseado em Paulo, embora, é claro, João também teve enorme influência sobre Lewis e outros autores canônicos idem, bem como mestres extrabíblicos, como George McDonald, RR Tolkien, Milton, Platão e tantos outros. Não há nenhum demérito em ter a sua fé alicerçada em cérebros deste quilate, e os cristãos modernos estão com a fé tão fria ou vacilante justamente por lerem pouco ou só lerem a Bíblia, o que quase dá na mesma.

Todavia e inobstante, nem Paulo, nem João, nem Pedro são perfeitos, ou que podem ter a sua palavra sequer comparada à letra dos discursos do Senhor Jesus; e se tal coisa se diz dos autores canônicos, muito mais valerá para os extrabíblicos, incluindo aqui o próprio Lewis. Assim sendo, já que o homem-foco deste artigo é Paulo, foi ele mesmo que, uma vez tendo ‘brigado’ com Pedro pela “língua-solta” do grande Barjonas, também soltou a língua precipitadamente em algumas ocasiões, numas das quais prejudicando a mensagem divina NA HORA em que falou, outras vezes dias depois, outras vezes até nossos dias, como veremos aqui.

Mas antes de entrarmos no exemplo básico deste nosso arrazoado, vejamos outros dois exemplos de palavras “inadequadas” de Paulo, por assim dizer.

(1o Exemplo de palavra inadequada): A mais conhecida foi uma precipitação dele perante uma plateia de doutores e filósofos no Areópago, quando ele vinha desenvolvendo um discurso muito bom de aproximação daquelas consciências em direção a Cristo, quando, num determinado momento no meio do discurso (que ele talvez julgou perto do final e por isso precisava ‘apressar’ as coisas, esquecendo-se de que aquelas discussões na época levavam horas e às vezes eram retomadas no dia seguinte!), Paulo ousou tocar na expressão “ressurreição de mortos” para uma audiência acostumada a não apenas ver a morte quase todos os dias, mas a estudá-la com o que havia de melhor à época! – Para o leitor ter uma ideia, seria o mesmo que falar em milagre de Deus numa roda de cientistas ateus. E o resultado? Ora, imediatamente a pregação dele foi CORTADA abruptamente, bem no meio, como se Paulo tivesse literalmente vomitado nos bancos da praça onde os sábios estavam sentados, afastando todos eles da “fedentina da crença” (para ateus, a fé fede). Ou seja, de um pulo, todos eles disseram, até de certa forma educadamente: “Ah, se é sobre ressurreição, mais tarde te ouviremos”… – Atos 17,16-33.

Antes de irmos ao segundo exemplo, vale investigar se haveria alguma maneira de conduzir aquele discurso sem falar em ressurreição. Sim. Havia sim. CS Lewis é uma prova disso. Quando Lewis fala sobre a Ressurreição, já deixou a cabeça dos ateus bastante “amaciada” para o choque da Revelação, separando aqueles mais empedernidos (dizendo: “estou falando apenas para quem crê que o Filho da Virgem é Deus”) daqueles ateus que ainda têm uma ‘sombra de crença’ no coração, que são os ateus-evangelizáveis. Para os de coração duro, o discurso entra pela longa jornada de um livro inteiro de apologética (como “Milagres” ou “Cristianismo Puro e Simples”) ou pela jornada de 40 livros de lógica pura, ao fim dos quais a descrença só se mantém pelo atestado de limitação mental que o próprio ateu atribui a si mesmo: isto quando percebe tal insinuação na leitura de Lewis (em meu artigo “Como seria o discurso de Paulo no Areópago?”, o leitor pode verificar melhor aquilo que estamos defendendo aqui – veja este título no Google ou neste link).

(2o Exemplo de palavra inadequada): Outra precipitação de Paulo que pode não ter sido provocada por pressa, mas sim pelo receio de encontrar na igreja alguma raiz de heresia de origem externa, foi quando ele declarou, sem pestanejar pelo apoio do Velho Testamento, que: “seja Deus verdadeiro e TODO homem mentiroso” (Rm 3,4), esquecendo-se de que ele também é homem e até então ninguém tinha provas para (e muito menos obrigação de) crer que ele FALAVA PELO Espírito de Deus, como até hoje ninguém tem prova disso, cabendo apenas a fé nos pregadores, fé na autoridade – como defende Lewis –, fé esta que o próprio Cristo disse ser perigosa e temerária (Mt 24,4-5). Ao dizer “seja todo homem mentiroso”, Paulo se põe ACIMA do nível humano para ser crido, ou se iguala a qualquer um de nós, caindo na desconfiança comum da espécie filha de Adão e Eva (Jr 17,5). É óbvio que a ideia já vem desde o Velho Testamento, quando o povo ainda cria – e tinha obrigação de crer por ordem de Deus – nos profetas inspirados pelo Senhor. Porquanto se todo homem for mentiroso, então toda a Bíblia corre perigo, num mundo descrente, afora as outras inúmeras dificuldades que a fé enfrenta para adquirir algum valor numa era científico-tecnológica. Deus, que viu na fé todo valor, é o primeiro a retirar obstáculos e aplainar os caminhos da fé para os pregadores, e precisa que estes tenham autoridade, i.e, que o povo creia neles.

(3o Exemplo de palavra inadequada): Porém o grande erro metodológico de Paulo foi sem dúvida provocado por falta de uma melhor clareza no assunto, já que nem Lewis, 2.000 anos depois e iluminado por toda a reflexão cristã ao longo dos séculos, conseguiu responder com exatidão ou em definitivo, em se tratando de uma matéria onde o próprio Deus fez algum tipo de silêncio, não porque não tivesse a resposta, mas pela impossibilidade da matéria caber num cérebro tão minúsculo quanto o nosso. Trata-se da ocasião em que Paulo, mais uma vez com os romanos (Rm 9,15-21), tratou de reintroduzir o tema escorregadio da Predestinação na sua explanação teológica de alto nível, talvez crendo que os de Roma tivessem nível teológico intelectual suficiente para ouvir QUALQUER COISA, no desespero de deixar a mensagem cristã segura para a posteridade. A explicação pode ser ESTA, sem dúvida, mas ela também pode ser limitada pela visão deste articulista, influenciada pelos meus próprios receios de ver a mensagem cristã não ter guarida nos corações. Foi quando Paulo, então, como se tivesse esquecido das belíssimas “Passagens da Misericórdia” (João 3,17; 10,28; 12,47; 15,4 e 16; 17,19-24; At 17,30; Mt 12,50; 18,14; Fp 2,12-13; I Ts 4,3; I Pe 2,15; II Pe 3,9; I Jo 2,17; At 2,21; I Tm 2,4), deixasse aos ouvintes uma única opção de salvação, e esta ainda A NÃO DEPENDER da voluntariedade da fé que ele mesmo defendeu alguns capítulos atrás e à frente, até na mesma carta, sendo ele próprio exímio conhecedor de que a fé só tem valor quando é VOLUNTÁRIA, e, portanto, somente assim capaz de salvar, e sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 11,6).

No problemático momento de seu temor, Paulo defendeu que por mais que alguém QUEIRA a salvação (a maioria de nós A QUER de verdade), ela não virá a não ser que Deus A QUEIRA, como se o apóstolo dos gentios tivesse alguma dúvida da vontade de Deus, que todo mundo sabe bem que é a salvação do maior número possível de almas, ou TODAS, como dizem os textos João 6,39 e 18,9 e todos os citados no parágrafo acima. Nem mesmo a morte física está naquilo que a vontade de Deus poderia desprezar para ajudar a todos os mortais (Ez 18,23 e 33,11), quanto mais a segunda morte, a morte espiritual. Se Deus tivesse qualquer ingerência sobre a vontade da salvação, então nem haveria um plano de Misericórdia, e até esta estaria sob a dúvida dos crentes.

O que mais espanta neste caso é que Paulo parece, na Carta aos Romanos, ora confuso com o legado do Velho Testamento, ora indeciso quanto ao Calvinismo ou Arminianismo, que nem existiam ali e, ao contrário, nele se basearam. Releia Rm 9,15-21 e veja como os gritos agressivos desta passagem vão de encontro ao capítulo seguinte (Rm 10,9-13 e 11,1), em que a ternura e a pungência de suas conclusivas – que mais parecem um apelo dramático de Deus – deixam qualquer um de nós feliz e seguro de ser desejado e procurado por Deus. Não citei o capítulo anterior (Rm 8…) por admitir a possibilidade de alguém dizer que o que Paulo disse DEPOIS vale mais do que o que ele disse antes… Mas o que ele disse ali também contradiz o capítulo 9. E já que é o depois que importa, veja o que Paulo disse em I Co 3,22-23.

Explicando melhor, veja que falando por Deus e dizendo coisas como “compadecer-me-ei de quem eu quiser me compadecer, e terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia”, ou conclusões grosseiras como “assim, pois, isto não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus se compadecer (…); Logo, pois, Deus se compadece de quem quer, e endurece a quem quer”, Paulo desvirtua-se completamente como um bom explicador da Revelação, ou até como aquele Paulo que escreveu aos Coríntios: “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (II Co 3,17), pois atropela suas próprias conclusões salvíficas, como a que pergunta: “porventura Deus rejeitou o seu povo?”, e a que encerra tudo dizendo “todo aquele que invocar o Senhor será salvo”. Como pode então ter dito aquelas grossuras inteiramente incoerentes com a infinita Misericórdia? (E ainda fez uma grossura contra o próprio Deus, quando falou, passando-se por outro: “Dir-me-ás então: De que Deus se queixa ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?”…). Onde estava a sua lembrança do pastor que faz de um tudo para buscar a centésima ovelha???

Não, querido Paulo. Não é assim que se prega para cativar almas perdidas. Almas perdidas são gente sofrida, geralmente experimentada na dor e na angústia, topando qualquer tábua de salvação no redemoinho da vida. São almas que de certa forma, por causa do sofrimento, já penetraram na chamada “Zona de Sucção do Ágape”, e portanto já alcançaram os ouvidos do Senhor e já fizeram seus olhos marejar. Se Jesus disse que não veio para os justos, e sim para os doentes, são justamente essas almas as mais doentes e mais carentes, podendo fazer parte do grupo de pequeninos pelos quais Jesus disse “ai daquele que fizer tropeçar um desses meus pequeninos”. São pessoas que têm experiência de mártir e alma de mártir, e por isso nem precisam transparecer crentes no mundo, e muitas vezes nem sabem que crêem e fazem a vontade de Deus (Mt 25,37-39).

Permita-me um último ponto. Qual seria o propósito de Paulo ao falar daquele jeito? A única explicação é que, sabedor de alguns tipos de almas que não se emendam nem com chicotadas, sendo tão empedernidas e rebeldes quanto satanás (daquelas que NEM A AMEAÇA DE CASTIGO resolve), então deixar na Bíblia um trecho onde o último apelo de uma alma fosse rejeitado por Deus, seria de fato o único modo de amolecer aquele coração de pedra, do mesmo modo como muitos homens só se tocam – ou despertam – quando a mulher que eles desprezaram diz pra todo mundo, menos para eles, que ela não os aceitaria NEM QUE eles lhe desejassem após todas as transformações de caráter que ela exigia… (porém ouvir ISSO de Deus é, sem dúvida, muito mais duro e cortante!). Esta é a única hipótese que valida o trecho de Romanos 9.

Finalmente, pode-se seguramente afirmar que a inexperiência de Paulo (pelo pouco tempo de nascimento do Cristianismo e nenhum outro bom ‘pregador-dos-gentios’ em quem se basear) foi a responsável por esse trecho da carta aos Romanos, e pensar que Deus faria “um vaso para honra e outro para desonra” é um fruto podre da hermenêutica do Velho Testamento, no qual Deus precisou mostrar a Sua “terrible face” para um povo de coração duro como o judeu, tal como explicou Lewis. Não se engane o leitor: a salvação é voluntária, e depende exclusivamente de sua vontade de salvar-se, pois (pode apostar que) Jesus QUER, DE TODO CORAÇÃO, a nossa salvação, e tudo fez e fará por ela! Aliás, Ele a quer desesperadamente, porque o ama infinitamente. Logo, para você ser salvo, basta confiar no infinito amor de Deus demonstrado em Cristo, amando-O tanto ao ponto de desejar cumprir, com prazer, a sua misericordiosa boa vontade.

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O dilema de ser ou não ser igreja

Ora sendo uma mordaça ao pensamento ou um mau exemplo moral, a igreja também constitui o melhor meio de viver a fé, que não pode salvar sem uma convivência salvífica entre irmãos.

Não podemos deixar de ver todos os malefícios que um ajuntamento humano enseja a quem quer que dele faça parte, sobretudo quando se trata de uma comunidade religiosa, onde o bom comportamento significa o único caminho para o êxito espiritual. Todavia e contudo, não podemos deixar de ver o elevado benefício que essa mesma comunidade enseja, único em condição sine qua para aperfeiçoar o comportamento que permite o êxito desejado.

Não tem jeito. Com a igreja se dá perfeitamente aquela força de expressão que diz, acerca de algo ao mesmo tempo mau e bom, com o qual precisamos nos relacionar: ruim com ela, pior sem ela. Lembra-se da polícia? Ruim com ela, pior sem ela. Lembra-se da hierarquia? Ruim com ela, pior sem ela. Lembra-se das injeções e transfusões? Ruim com elas, pior sem elas. Porquanto as duas condições opostas ocorrem simultaneamente, e a proposição-síntese exprime-se assim: é horrível ter uma igreja que nos proíbe de pensar, ou cuja liderança dá mau exemplo de pecados carnais gritantes; no entanto, seria um inferno total uma vida sem igreja, pois estaríamos apenas nos lambuzando em nossos pecados, sem ter ninguém que nos apontasse as falhas, e assim não chegaríamos ao Céu que queremos após a morte. Creio que é esta dupla função, este perfeito binômio entre as vantagens e as desvantagens, que tem mantido a igreja viva ao longo dos últimos 2.000 anos.

E podemos descobrir facilmente porque algumas pessoas preferem abandonar a igreja (quase sempre sem ver as vantagens), e porque outras preferem ficar nelas, apesar de enxergarem bem as desvantagens. Chamemos as primeiras de “ímpios” e as segundas de “pios”.

Os ímpios decidem não se manter em (ou nem sequer se aproximar de) uma igreja, em razão de deixar, nadando em seus olhos, apenas a lama com que muitos cristãos se lambuzam, justamente por não comungarem da sujeira e aceitarem esta como prova de que Deus não existe ou que não tem poder para implantar na Terra a “sua” justiça (deles). São aquele tipo de fariseu descrente que, julgando-se superior aos ingênuos que acreditam numa casa imunda como o templo, fica afastado dos locais de culto por uma estranha “inveja-medrosa” (i.e, são aqueles que, por no fundo temerem cair nos mesmos pecados dos hipócritas, saem do ambiente eclesial pensando mal dos que lá persistem, como se a até a igreja e o próprio Deus também comungassem daquela nojeira toda). Ou seja, são o tipo da gentinha que, se o diabo lhes der uma assopradinha leve, irão todos parar no mesmo poço fétido; ou pior, levarão consigo a mesma imundície para a igreja e para seus círculos sociais.

Todavia este tipo de ímpio fala mal da igreja ou dela se afasta não apenas porque ali estão os pecadores mais hipócritas da sociedade! Não, nada disso. O que eles odeiam, de fato, é estarem em um lugar onde os olhos dos outros estão mais preparados para detectar falhas de comportamento, e assim, por detestarem qualquer relato de seus pecados individuais, fogem da igreja como o diabo foge da cruz, jamais se dando conta de que, se num ambiente onde os erros de todos se tornam visíveis e  cobráveis, o quão maiores não serão os erros em ambientes sem qualquer visibilidade e sem qualquer repreensão?…

Ora. Deus é vivo. Ele é esperto. Ele sabia que a batalha contra os pecados é encarniçada e cruel até a última gota de sangue, e se nada fosse feito neste mister, toda a Criação devolveria a Ele apenas a fedentina de um projeto fracassado, e ao final Ele seria apenas um Deus-fracote! Pecados são vícios, e vícios são nojentos e pegajosos, com altas taxas de fertilidade e contágio. Desde que Adão pecou, a bola de neve da sujeira começou a rolar e, a menos que alguém inclinasse o declive, ela jamais deixaria de cair, indo até o fundo do poço e do poço sem fundo. Então, num repente, Deus teve um choque e pasmou-se, sentindo sua imaculada consciência a cobrar-lhe uma providência emergencial, do tipo tudo ou nada, se é que Ele queria mesmo prosseguir com seu plano de criar alguma coisa que não fosse Ele mesmo. Mas o seu infinito amor não desiste de seu plano original, e continua a querer ter com ele essas criaturinhas toscas que nem nós, e ainda desejando receber de nós o nosso tosco amor, que só tem valor por ter uma qualidade dEle, a saber, a voluntariedade.

Todas essas coisas, então, perfazem os argumentos que justificam todos os esforços para a manutenção da igreja na Terra, pois ela é, a um só tempo, tanto o organismo impuro que tem o Deus da pureza como Guia, quanto é também o organismo puro que se acasala com a impureza e envergonha ao seu Guia. Não há nenhum outro argumento além deste. Porém, até aqui, falamos apenas do aspecto positivo de uma igreja, o principal. Agora vejamos o negativo, que agrada aos ímpios e dá-lhes uma razão “justa” para serem ímpios.

O lado ruim da igreja (ela mesma se diz santa e pecadora) é muito mais teológico e filosófico do que comportamental, embora a teologia e a filosofia sempre mergulhem na lama quando o teólogo ou o filósofo pecam. Ter uma igreja (engajar-se) ou freqüentar uma é um transtorno para as almas que, uma vez conscientes da verdade e conhecedoras da teologia, descobrem coisas além do nível mínimo com o qual as congregações mantêm seus fiéis, e assim não apenas abrem mais os seus olhos para enxergar os pecados das lideranças (padres, pastores, etc.), como recebem do Senhor as inspirações necessárias para pregar a Palavra de Deus, e assim recebem das lideranças pecaminosas o silêncio obsequioso ou a mordaça, sendo impedidos de falar qualquer coisa que esteja além do nível “pastoral”, ou capaz de propor “elevação consciencial” às ovelhas.

O problema é que, assim como no meio político, os eleitores precisam ter uma baixa escolaridade para votar em corruptos, e os soldados precisam ser quase analfabetos para cumprirem ordens absurdas, assim também as ovelhas precisam ser um pouco – ou muito – ignorantes para encher os templos com comportamento uniformizado, visando distinguir uma denominação de outra, sob pena de ao final os cristãos serem um só grupo, formando uma só igreja e eliminando o ganha-pão dos líderes e outros aproveitadores. Noutras palavras, se o espaço é pequeno para tanta liderança ganhar o seu $ (cada uma com seu imenso rebanho), então todas precisam lutar com unhas e dentes para deixar o seu corpo doutrinal bem definido ou distinto, caso contrário, quem pensar diferente será um traidor ou um membro de outra denominação, e por isso não pode se manter no grupo. Como é muito difícil formar uniformidade robótica entre os sábios, então os cordeirinhos precisam ser quase analfabetos na Bíblia para serem fiéis, i.e, fidelizados, obtusos, soldados rasos, ovelhas-cegas que seguem cegamente a voz de seu pastor.

Isto tudo é dito sem lembrar dos líderes que caem em pecados carnais, o que torna o drama da igreja muito maior, pois ali é quando a igreja vira um inferno, com o próprio demônio na liderança. E não são poucas, na Pós-modernidade, que dão este triste exemplo. Mas chega de dor e choro.

A verdade é que a igreja foi chamada pela Palavra de Deus de NOIVA de Cristo. Uma Noiva que, em comparação com o Noivo, só pode ser mesmo muito pecadora, e em comparação com todas as outras noivas do mundo, só pode ser santa!… Eis aí o grande “x” da questão.

Ruim com ela, pior sem ela. O mundo sem igreja seria o inferno, literalmente falando. Mas é verdade que só os santos poderiam reconhecer isto, e dar a ela o devido respeito, não por ela, mas pelo Noivo que ela tem. E pelo Noivo, valerá sempre a pena aproximar-se da Noiva, uma vez que nenhuma outra mulher, nenhuma outra pessoa na Terra, teria algo de bom a oferecer. Até porque, longe dela, e os santos sabem disso como ninguém, eles também chafurdariam no lamaçal do pecado, ao ponto até de sentirem “prazer” com a lama. Logo, e por isso mesmo, fazendo o exercício que o mundo não quer fazer e que é o único que salva, eles aproveitam aquele único segundinho em que conseguem ver os seus pecados (aliás, o mal que seus pecados fazem aos outros) e correm para a Noiva, pedindo a ela para os ajudar, e ela então se torna sua mãe e terapeuta. Isto explica a confissão, a penitência, a voz de Deus na garganta do pregador, a assepsia promovida pelos sacramentos, etc.

Finalmente, se o leitor freqüenta igreja, agora já sabe o que ela tem de ruim, por causa da proibição de pensar que vem junto das proibições de não pecar (não faz mal: pense à vontade, e estude bem a Bíblia, e continue aos pés da Noiva, ouvindo mais o Noivo do que sua futura mulher). Mas se o leitor não freqüenta igreja, agora tem um bom motivo para fazê-lo, a menos que queira manter-se no lamaçal, sem ouvir ninguém e a falar mal da vida alheia. Se for isso, você “pelo menos não sofre os efeitos da burocracia eclesial” e tem o seu futuro decidido mais rápido. Sem dúvida. Porém, cuidado! Quem toma uma decisão dessas está proibido e ter medo. Já pensou? Você pode segurar esta onda? Então tá. Se um dia se sentir só, não caia na besteira de procurar a Noiva do Rei. Lembre que ela pode ter a língua afiada com a espada do Noivo…

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Os absurdos contra Deus são de longa data…

Vozes ateístas ou a favor de um Deus despersonalizado são antigas, é verdade, porém a modernidade deu a elas as falsas cores da “Razão e da Ciência”, que detestam a pobreza mas dela tiram proveito para se manter popular e influenciar a Humanidade “pelo prestígio que gozam as maiorias”.

Um autor famoso, do início da Modernidade, escreveu uma “prosa” monologal de extremada heresia contra uma verdade central do Cristianismo, com ares de profeta do Velho Testamento, como se tivesse recebido de Deus a Sua própria Palavra para orientar o povo contra o verdadeiro Deus, e constituindo, desta forma, um dos mais danosos discursos antiteístas de quantos a raça adâmica já produziu contra o Autor da Criação.

Refiro-me ao “mestre” Baruch Spinoza (ou Bento Spinoza), autor de obras como “Ética demonstrada à maneira dos geômetras” (Ethica Ordine Geometrico Demonstrata); “Tratado Político”; “Um breve Tratado sobre Deus e o Homem”; “Melhoramento do Intelecto (De Intellectus Emendatione); “Princípios da Cartesiana”; “Tratado sobre a Religião e o Estado (Tractatus theologico politicus), dentre outras, o qual se tornou um ícone do “panteísmo ilusionista” da Era das Incertezas. Além desses livros, Spinoza um dia deu uma de gaiato e resolveu imitar os profetas, escrevendo uma espécie de “carta-divina”, na qual o suposto “deus-pan” (do panteísmo dele), pasmem, ENSINAVA acerca de Si mesmo, com ares de autoridade apostólica e com o intuito, seguramente, de enganar a Humanidade, cumprindo, isso sim, a vontade dos contrários a Deus.

Pior, os incautos pós-modernos, baseados no cantar de um galo que nunca viram, deram todo prestígio para tal texto, fazendo-o desfilar de papa-móvel pelas ruas de Roma e da literatura, ao sabor das correntes reencarnacionistas e panteístas mais radicais. Tanto é assim que, em plena luz da Era das Comunicações, traduziram o material sob o título de “Deus Segundo Spinoza”, e o elegeram à categoria dos grandes clássicos do pensamento humano, indicados para integrar os currículos de cursos de filosofia, antropologia, sociologia e até teologia, noutra ironia pós-moderna.

No tal monólogo, Spinoza discursa empaticamente (como se fosse Deus falando por ele) e às vezes antipaticamente, dando uma de bom conselheiro das “boas” virtudes, quando não passa de um amontoado de instruções mais cabíveis aos manuais lascivos das sacerdotisas de Eros, ou aos velhos livros de erotismo do Oriente, embora sem nenhuma gravura a ilustrar o sexo que perpassa nas suas entrelinhas. É óbvio que só as entrelinhas testemunham isso, já que a ideia é instruir os incautos acerca de uma suposta inteligência cósmica, a qual, por sua aparente e inexorável “indiferença”, jamais deveria ser cultuada de modo formal, sendo, quando muito, chamada a emprestar seu prestígio para apoiar filosofias liberalizantes ou “libertárias” (quando não passam de libertinas).

Logo, partir de um deus longínquo, eólico, nefelibático (de “energia pura” – diabo é quem entende), indiferente e incapaz de interferir nos detalhes do cotidiano, para chegar a um deus-permissivo e imoral, seria o corolário lógico e inevitável para quem usasse um raciocínio desses, se fosse um ser humano e feito de carne como nós, carne essa ligada intimamente aos instintos mais básicos das espécies primatas. Neste ponto nosso argumento pode fazer um intervalo e dizer que, “sendo todo homem mentiroso e Deus verdadeiro” (Rm 3,4), a única criatura que poderia falar por DEUS seria um anjo, e mesmo assim a história está cheia de anjos que pecaram!

Spinoza então usar o nome de Deus em vão e ensinar, nas entrelinhas, que a única vida que se deve viver é uma vida libertina, onde ninguém dê pitaco em coisa alguma que alguém queira fazer, não é nada de espantoso e é até esperável, uma vez que todas as almas humanas anseiam pela liberdade total (originalmente proposta por Deus mas infelizmente conspurcada na Terra), a qual só é possível com o alegre compromisso de se ser benigno para com os outros, já que liberdade total sem responsabilidade é sinônima de criminalidade. Entretanto esta mesma liberdade, associada compulsoriamente à responsabilidade, termina por desagradar às almas (ou à maioria delas), uma vez que implica em comprometer-se com a vida alheia – não apenas em usar os outros para o prazer pessoal, mas em ajudar nos sofrimentos, defeitos, vícios, atrasos, desorganizações, chatices e toda a gama de inconvenientes que a convivência humana possui. Não é à-toa que o maior exemplo de alma boa dado por Jesus se chamava “o bom samaritano” (Lc 10,30-37), e ele era o tipo do cara que, se abandonava um dever para fazer uma caridade, quanto mais um prazer!…

O bom samaritano era e é o HOMEM LIVRE da proposta original de Deus, e toda a liberdade que gozava era diretamente proporcional à caridade que fazia, e sem esta não teria aquela. Fica no ar a pergunta: é ESTA a liberdade que deseja o conjunto da Humanidade? Pior: é esta a liberdade que propõe Spinoza em seu famigerado monólogo?

O “mestre” panteísta fala fazendo pedidos! Fala como se fosse o último posto de gasolina no deserto ou a última cocada preta da rainha baiana! Fala como se fosse uma autoridade infalível, ou um novo papa da autoajuda, exigindo atenção, louvação e cumprimento. Pede para que ninguém ore mais! Pede para que abandonemos as igrejas! Mente descaradamente dizendo que Deus nunca apontou um pecado em nós! Põe toda a culpa do mal no mundo nos ombros daqueles que nos retransmitiram a religião e a fé! Desmoraliza e anula todo o valor das Sagradas Escrituras, temendo visivelmente encontrar nelas algo que lhe impeça a libertinagem sublinarmente pretendida! Diz que Deus jamais será encontrado em livro algum, e apenas os que souberem “ver” (ou inventar) um deus nas flores e nos rios O verão de alguma forma, já que Ele não tem forma mesmo! Pede para que nada peçamos a Ele (o contrário do que pediu Jesus), nem mesmo perdão! Neste ponto, lembra a letra de uma música de Gilberto Gil que precisa ser lida com muito cuidado (“Drão”), a qual parece dizer que o pior de todos os crimes contra a infância seja encarado por Deus como “nada a perdoar”, no sentido de que não há pecado algum para ser perdoado. É óbvio que Gil não se esqueceu da pedofilia nem do holocausto, e com certeza não pensa assim.

E tem mais: ao dizer que os próprios pecados foram colocados no coração humano pelo próprio Deus, termina por reforçar posições pelagianas e até satanistas, denunciando Deus como o único culpado de tudo! Com isso emenda e induz o leitor a ver Deus como o supremo injusto, já que Ele mesmo teria inventado e pecado e depois ainda condena os pecadores a um inferno de fogo! (jamais lhe passa pela cabeça supostamente genial que quando Deus deu a liberdade, também permitiu que os rebeldes não O quisessem bem, e por isso não iriam, por si mesmos, querer a companhia eterna de Deus, indo sozinhos para longe, sendo este longe um “inferno pessoal”, no sentido da curtição da ausência de Deus, que para Deus é a infelicidade total! ESTE é, afinal, o único inferno que existe! E as almas vão para ele por livre e espontânea vontade).

Tem mais: Spinoza pede para que “esqueçamos os 10 mandamentos”! (aliás, qualquer tipo de lei… O que deve preocupar seriamente as autoridades legitimamente constituídas, em seu dever de zelar pela paz e pela boa convivência social). Diz que as leis são “artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti”: grande discurso para auditório de presídios!

Depois disso, o conselho “genial” que ele parece tirar da cartola de um mágico alienado, apenas pede que haja respeito ao próximo, como se isso fosse algo além do óbvio ululante! Pior: como se fosse algo que o Zé-povão entende direito, e com ele tivesse diminuído as estatísticas da criminalidade! (Perdoado pela sua era, certamente ele nunca leu a quantidade de livros e mestres e até idiotas pregando o respeito como única solução, e não vendo que se apenas o respeito bastasse, o mundo não estaria tão violento quanto agora, nos nossos dias). Como ninguém entende bem O QUE É o Respeito, peço que leiam este artigo aqui.

Em meio a tamanho descaroçar de ignorâncias, Spinoza cai em contradição (um escorrego ou uma insidiosa interferência da Verdade?) para com seus próprios defensores reencarnacionistas, quando diz que esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso; esta vida é a única que há aqui e agora, e a única que precisas”. De fato, é única, sim, do ponto de vista humano, pois no passado éramos pensamentos de Deus e no futuro seremos “ressurretos de Deus em corpo glorioso”, coisa jamais compreendida por Spinoza e os céticos do mundo. Todavia, é sim, uma prova, um degrau, um passo no caminho, um ensaio, um prelúdio para o mais belo e arrebatador Paraíso de George MacDonald. E todos levamos o registro do que fomos e do que fizemos (Lc 21,18), porque nada se perde…

Em seguida Spinoza diz: “tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno”: haveria aqui outra interferência da Verdade, que nem um cético consegue impedir? Porquanto o inferno, conquanto seja mental, afasta as almas para longe daquele Deus a quem não quiseram amar (amar = obedecer) e o Céu, que não é mental, aproxima as almas daquEle a quem amaram, muitas vezes nem sabendo que era amor a Ele, embora direcionado ao próximo, como Jesus explicou em Mt 25,34-40 (quando o fizestes, a mim o fizeste) e I Jo 4,20-21.

Spinoza segue falando como profeta e pede para que vivamos esta única vida como se nada mais houvesse após a morte. Com isso, aconselha que vivamos os nossos prazeres e apenas gozemos a vida, que ao final Deus nada perguntará a nós, a não ser: “gozaste mesmo?”… – Ora, nem é preciso ser cristão para lembrar que foi contra este pensamento que Jesus contou a terrível parábola do homem louco (Lc 12,16-20), a qual obriga àquela pergunta irrespondível: “que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”… (Mt 16,26).

O “gênio” não parou aí. Pediu para não louvarmos a Deus (CS Lewis explicou que louvar ao Senhor não é uma necessidade dEle, e sim nossa! E só quem viveu um inferno mental sabe bem disso); pediu para não agradecermos a Deus, quando Jesus se entristecia quando apenas um ex-aleijado voltava para agradecer, após a cura de nove doentes; e pediu, pasmem, para não termos fé, e isto basta! O auge da heresia está aqui: “Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti”. Erros colossais! Crer não é supor! E muito menos adivinhar! Crer é usar a Razão Dedutiva, que o próprio Spinoza diz honrar, e descobrir Deus na lógica da Criação, sendo Deus a única “Coisa” que torna a Criação lógica. Sem Ele, tudo vira um absurdo, e assim, sendo tudo absurdo, é também absurdo não crer. Além do mais, crer é também pensar e sentir, e por isso é impossível sentir sem crer! Senão vejamos: quem pode sentir o amor de uma esposa (ou de um marido) sem acreditar que tais pessoas não sintam amor por nós? Assim, a fé é a única ferramenta que possibilita o amor, pois ela é feita da mesma matéria deste, a saber, a confiança!

Finalmente, a quantidade de aberrações pontuais desse discurso de Spinoza é tão acintosa que chega a deixar a dúvida se de fato o “mestre” falou assim. Porquanto tínhamos Spinoza em boa conta, como um bom panteísta até certo ponto inocente, confundido pela indisfarçável presença de Deus em todos os pontos da Natureza e obrigado a pensar muito para descobri-lO além dela. Porém, agora que a máscara caiu, devemos voltar nossos olhos para mestres como CS Lewis, John Stott, Paul Yansey, JB Phillips, etc., ou melhor, para os pais da fé, como Pedro, Paulo, João, etc. Este sim é um bom conselho: fique com estes, pois eles não apenas usaram bem a inteligência que Deus lhes deu, mas tiveram com Ele experiências que lhes bastaram para amá-lO acima de tudo, bem como ao seu próximo e, afinal, à Verdade.

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Carta que CS Lewis escreveu com a mente de Cristo

Um impressionante trecho do livro “Cartas a Malcolm” (da Carta VIII), no qual Jack tece o mais profundo arrazoado acerca da “Teologia da Paixão” (“as dores finais de Cristo”), prova ser um raciocínio só possível a um gênio.

No último livro de CS Lewis (póstumo) e num dos mais recentes lançados no Brasil, chamado “Oração: Cartas a Malcolm”, o mestre irlandês mergulha tão fundo na mente de Deus que não é possível extrair qualquer conclusão do caso que não seja a admissão de uma obra de gênio, num raro e até milagroso momento de cumprimento de uma ousada profecia Paulina que diz: “Porque, quem teria conhecido a mente do Senhor, para que pudesse instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (I Coríntios 2:16). Tão sublime é esta profecia que muitos teólogos e exegetas afirmam, veja bem, “se ela não pode ser aplicada a nenhum dos santos, quanto mais aos vivos”. Inobstante, este articulista não afirma isto com a mesma convicção dos teólogos, pois crê que CS Lewis também não o fez, pela razão óbvia da possibilidade descortinada por ele mesmo.

Todavia e por isso mesmo, não é bom o leitor ler o presente artigo sem ver antes o que disse Lewis. Assim sendo, convido-o a ler o trecho no Blog da EAT, NESTE link. De posse do pensamento de Lewis, vamos elencar as ilações passíveis de serem feitas a partir delas, e convidamos o leitor a devotar toda a sua atenção aos raciocínios ensejados pela ‘ousadia’ de Jack.

No primeiro parágrafo inteiro, ele analisa cada um dos recursos aos quais Cristo poderia recorrer dentro da sua macabra “noite traiçoeira”, noite medonha de trevas pelas quais todos nós passamos, em menor ou maior medida. E ele diz logo que, sem dúvida, aos santos caberá uma noite ainda mais aterradora, justamente pelo grau de proximidade desses com o Autor de sua fé. Então, estendendo o raciocínio, conclui que, se um santo vai passar pela densa treva, o quão densa não será a noite pela qual o Filho de Deus passará? E daí, incontinenti como sempre faz, Lewis estica a baladeira e desce cada vez mais fundo na angústia divina, apontando cada uma das instâncias que Jesus procura para aliviá-la, e delas não recebe qualquer alívio, pelo contrário, afunda-se na solidão extrema, apenas acompanhada das risadas subliminares do inimigo e dos infernos que estão à espreita e O esperam.

E cada item dessa procura é citado como uma chicotada: primeiro a súplica rejeitada; segundo, a fé na fidelidade dos amigos íntimos (seus soldados em batalha), que parecem hipnotizados num sono robótico; terceiro, a igreja (no singular, ampliando o sentido) que Ele mesmo criou, numa decepção das mais previsíveis, segundo Lewis, já que TODAS as instituições – mais cedo ou mais tarde – se voltam contra aquilo ou contra o alguém que as criou; quarto, o Estado, no cúmulo do desespero, que é quando Deus tem que ir a um tribunal humano (I Co 6,1-9) pedir a justiça que os crentes não lhe dão! Vergonha completa nossa!; quinto, o próprio povo, a quem ele curou, protegeu, salvou… Este também O rejeita e ainda O condena, assassinando-O e libertando Barrabás!; e sexto, por último, no último dos últimos apelos, Ele se volta ao próprio Pai! E o resultado? Ele acabou perguntando: “Pai, por que me abandonaste?”. Neste ponto, Lewis abre um curto parágrafo e explica que tudo isso é a condição humana em si, ou seja, que ser homem é sofrer mesmo. É procurar uma saída e não encontrar. É cair num oceano de tubarões e o único barco que passar é pilotado por quem quer a sua morte.

O parágrafo seguinte é por demais complexo. Tão complexo que Lewis se comporta de modo inédito para seu histórico de atendimento ao versículo petrino, que diz que devemos estar preparados para oferecer os argumentos de nossa fé a todo aquele que nos pedir razão da esperança que há em nós (I Pedro 3,15). O ineditismo é ver Lewis fazer uma pergunta que nem ele mesmo responde, transparecendo uma pré-angústia dele ao seu próprio calvário interior, da noite escura que viveu desde o prenúncio da morte de sua amada Joy. Este é o ponto: “Em relação ao abandono final, como entendê-lo ou mesmo suportá-lo? Será porque Deus mesmo não pode ser Homem, a menos que Deus pareça sumir diante de Sua necessidade maior? E, se assim for, por quê?”: Quem responde essa??? Lewis nunca foi chegado à questão dos porquês, mas sim aos “para quês” (pois estes fornecem uma pista muito mais exata da soberania de Deus sobre o tempo e o espaço), embora todos os raciocínios dele atendam aos porquês de suas próprias curiosidades, dando respostas a perguntas que nem foram pensadas por outros! Logo, por que Lewis usou aqui o porquê???

Em seguida, ele relaxa e desanda a destilar seu raciocínio fluente e desce ao profundo, sem se importar que o leitor esteja voando que nem condor, ou com sua dor voando, temendo ou antevendo sua própria noite de trevas. Aí então fala, como se estivesse conversando aqui e agora, e diz: “Às vezes, eu me pergunto se, de fato, temos pelo menos uma pálida ideia do que o conceito de criação acarreta: Quando Deus criar, Ele trará algo à existência que não será Ele mesmo. Ser criado, de algum modo, significa ser ejetado ou separado”. Há algo mais elevado do que isto? Lewis foi além (ou chegou à questão shakespeareana antes que Shakespeare a tivesse formulado: “ser ou não ser? Criar ou não criar?”) de todos os limites inexoráveis da Criação divina, alcançando aquele ponto onde uma encruzilhada se apresentou para o próprio Deus, uma encruzilhada que nem a Onipotência pôde desfazer, ou desentortar, ou evitar, já que o drama de criar será, necessariamente, algo que fará surgir alguma coisa “não divina”, e, portanto, inexoravelmente limitada, imperfeita, falível, pecaminosa (no sentido de inevitavelmente deficiente) sem maldade, podendo se tornar má por sua própria decisão.

Isto impõe certos termos mais “condescendentes” até na compreensão da maldade de Lúcifer, já que o próprio ato de criar é uma “temeridade”, no sentido de deixar a própria onipotência sob o risco de conviver com a imperfeição, que jamais agrada a Deus. Isto prova que a criação, em si, é, antes e acima de tudo, um ato desesperado de amor da parte de Deus, que não se bastaria a si mesmo, e por isso sentiu, num certo ponto-tempo de sua existência perfeita, alguma espécie de necessidade, embora absolutamente nada lhe faltasse! Que o amor infinito pode “desesperar-se” – para amar além de si mesmo – e isto seria outro mistério insolúvel, que nem Lewis solucionou.

Lewis continua perguntando, dada a profundidade da questão: “Pode-se dar o caso de que, quanto mais perfeita a criatura, tanto maior será, em algum momento, a separação? São os santos, não as pessoas comuns, os que passam pela “noite escura”. São os homens e os anjos, não os animais, os que se rebelam. A matéria inanimada dorme no seio do Pai. A condição de ser oculto de Deus talvez cause maior dor ao pressionar aqueles que, sob outro aspecto, encontram-se mais próximos dEle, e portanto Deus mesmo, feito homem, será entre todos os homens aquele a quem Deus relegará ao supremo abandono?”… – Aqui surge o paralelo inevitável com as dores das relações humanas: quando elas vêm daqueles que mais amamos (nossa família), elas são muito mais dilacerantes, e o ódio de um pai a um filho é uma facada que corta o coração de qualquer um, inclusive de bandidos, e por isto estes não perdoam incestos e outros crimes, quando um pai pedófilo chega a um presídio.

Ou seja, voltando a Lewis: QUEM poderá responder a isto? Ouso pensar que nem o maior de todos os arcanjos do Céu, terá esta resposta. Todavia, tudo leva a crer que só uma experiência vívida numa terrível noite escura poderá fornecer, àquele por ela vitimado, algum vislumbre dessa resposta, e quem a obtiver não a repassará a ninguém, como Cristo não a repassou. As pessoas comuns, em seus tormentos, podem contar. Os santos não. Logo, a angústia maior e o calvário da alma são não apenas necessários, mas o único caminho de volta à perfeição, e, por ter a presciência disso, Jesus aceitou o desafio completo da via sacra, proposto desde antes da criação do universo (Ap 13,8). A distinção entre santos e pessoas “comuns”, que Lewis aqui destila sem qualquer temor, leva os olhos do leitor para os extremos opostos (Deus e os animais) e faz ver o ingente abandono de Jesus na cruz e a “segurança tranqüila” da vida animal, numa lição de teologia cujo registro deve estar num “manual para demônios arrependidos”, por assim dizer. Pois Paulo diz que o Deus-crucificado expôs os demônios – ou expôs aos demônios – na hora derradeira da Sua máxima dor, misturada à angústia do abandono que deve incomodar também aos anjos decaídos (Col. 2,14-15).

Isto comprova a conclusão de Lewis de que deve haver sim “uma angústia, uma alienação, uma crucificação envolvida no ato criativo. Porém Deus julga valer a pena a distante consumação” ou o risco de “perder alguns” por seu próprio Livre-arbítrio, e portanto, não estarão perdidos no sentido condenatório, já que por si mesmos decidiram abandoná-LO.

Por último, Lewis cita um teólogo do século XVII, o qual disse que “se Deus fingisse ser visível, Ele teria tão somente enganado o mundo”. E arremata dizendo que talvez Deus finja sim, um pouco, mas apenas “para aquelas almas simples que necessitam de uma boa medida de ‘consolação palpável’…” (esta consolação palpável pode incluir, sem maiores prejuízos ao arrazoado de Jack, a hipótese de que as almas comuns, ou limitadas mentalmente, precisariam de algo concreto, tangível, como fotos e imagens, para sossegar a sua fé sedenta de matéria, matéria esta que Deus não desonrou e, ao contrário, a usou, por exemplo, na Eucaristia; entretanto, mistério dos mistérios, a Eucaristia não engana ninguém, pelo contrário, mostra o Cristo mais espiritual do que nunca). Porém, na verdade, o “fingir divino” estaria na materialidade de Jesus, na sua vida humana e no assumir a sua dor, a qual necessita de uma redução ou até de uma anulação da divindade (que não sente dor alguma) para fazer-se sentir, num raciocínio que Lewis já explicou no livro “Mere Christianity”. O Pai divino da Santíssima Trindade jamais poderia vir e habitar entre nós, exceto pela Sua redução drástica* e até a sua anulação, deixando de ser Deus, o que levou muitos teólogos, antigos e novos, a admitir a “Teologia da Eleição de Jesus” (TEJ: tão coerente quanto a da “Divindade Indesfazível de Jesus”: DIJ) como chave para entendimento das questões que Lewis tratou aqui. [* = Uma vez Jack chamou a redução drástica de “Transposição”].

I.e, para a TEJ, quando Jesus nasceu, a pessoa da Trindade que Ele era deixou de existir e fez-se 100% homem no ventre de Maria, passando a “reaparecer gradativamente” ao longo da vida do Nazareno, consubstanciando-se no texto que diz “Ele crescia em sabedoria e em graça perante Deus e os homens” (Lc 2,52). Os próprios apóstolos teriam visto que, uma alma daquelas, com tamanha bondade e inocência, só poderia mesmo ser eleita por Deus, já que ninguém foi tão puro e magnânimo como Ele. Que o Nazareno, que havia deixado de ser Deus, recuperou a sua divindade ao longo de sua vida e missão, servindo de exemplo perfeito para cada um de nós, que podemos crescer até à perfeição, como diz Paulo em Fp 3,12, e como é desejo de Deus nas palavras de “Oyarsa”). Esta é a coerência intrínseca do raciocínio da TEJ. Já na outra teologia, a DIJ, Jesus nunca deixou de ser Deus, e apenas fez a sua divindade ocultar-se de sua mente e preservar-se “congelada” para a operação de milagres, cuja utilização só viria quando ocorresse aquilo que o Nazareno chamava de “é chegada a minha hora”, como foi dito quando Ele operou o milagre de Caná. A partir dali, Ele apenas descortinou a sua outra natureza, a divina, sem jamais tê-la abandonado. São estas as duas teologias que C.S. Lewis nos obriga a repensar ali. A propósito, escrevemos um livro sobre este assunto, o qual foi prefaciado pela Dra. Gabriele Greggersen, intitulado “Radiografia de Maria”.

Finalmente, a questão é que acredito jamais ter existido alguém que fosse, com a sua “simples” inteligência, até onde Lewis foi, nem ninguém que jamais irá. Nossos olhos se obrigam a voltar para figuras como os nazireus, como Enoque, Noé, João Batista e outros raros da Palavra de Deus. Se tais pessoas existiram um dia, é porque talvez ainda possam existir. É aqui que colocamos CS Lewis. Ele está no mesmo patamar mental de um Enoque e de um João Batista. Ele foi, por obra e graça de Deus, elevado em espírito durante toda a sua vida, embora só tenha se dado conta disso após a sua “noite negra”, ou nem mesmo com ela, dada a sua extrema humildade. Que ele nos sirva de modelo de santo vivo, já que ninguém morre (Lc 20,38), porque exemplo para os que estão no Além ele já é, desde que lá chegou.

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